Crianças Índigo
sexta-feira, 28 de março de 2008
A criança tem “excesso de energia”? “Não aceita a autoridade”? “Tem dificuldade em concentrar-se”?”Tem mudanças repentinas de humor”?
Um psicólogo tradicional pensaria “possibilidade de ter uma perturbação de hiperactividade”. Mas não é disso que se trata…São crianças índigo e têm até auras azuladas (índigo)…Vieram para nos salvar e promover a nossa evolução…Não precisam de ser educadas, apenas amadas. Mais uma crença perigosa.
O termo “Criança Índigo” foi criado por Nancy Ann Tappe, uma psíquica (supostamente tem poderes paranormais) que classificou as pessoas segundo a sua aura, num livro de 1982. Segundo a Nancy, o fenómeno índigo é reconhecido como uma das mais excitantes mudanças na natureza humana que já foram registadas. As crianças índigo são fáceis de reconhecer pelos seus olhos grandes e claros. São extremamente inteligentes e precoces, com uma memória espantosa e um forte desejo de viver instintivamente. Estas “crianças do próximo milénio são almas sensíveis com uma consciência evoluída que vieram cá para ajudar a mudar as vibrações das nossas vidas e criar uma terra, um globo e uma espécie. Elas são a nossa ponte para o futuro”(1).
Os defensores da existência destas crianças dizem que muitas crianças diagnosticas com a desordem de défice de atenção são afinal índigo e que representam uma nova evolução na espécie humana e que, portanto, não precisam de medicação, mas sim de treino especial e atenção (nada contra esta última afirmação…as crianças com hiperactividade necessitam realmente de atenção especial).
As crianças índigo são reconhecidas pela sua aura e por outros traços. O “Índigo Clildren Website”(2) aponta:
1- Vêm ao mundo com um sentimento de realeza (e comportam-se como tal)
2- Têm um sentimento de “merecerem estar cá” e ficam surpreendidos quando os outros não partilham essa ideia
3- Têm dificuldade com a autoridade absoluta (autoridade sem explicação ou escolha)
4- Simplesmente não fazem certas coisas; por exemplo, esperar numa fila é difícil para elas
5- Parecem antisociais a menos que estejam com os seus iguais. Podem virar-se para dentro de si mesmas, sentindo que ninguém as compreende. A escola é muitas vezes difícil para elas do ponto de vista social
6- Não respondem à disciplina baseada na culpa (“espera até o teu pai chegar a casa e descobrir o que fizeste”)
7- Não são tímidas em fazer saber o que precisam
Muitos destes “traços” são perfeitamente normais e habituais numa criança, mesmo as não índigos:
1-Muitas crianças acham-se reis ou rainhas ou princesas e comportam-se como tal (geralmente porque os pais assim as fazem sentir-se e permitem;
2- As crianças, até por factores desenvolvimentais, julgam que o mundo gira à volta delas;
3- Qual a criança (ou adulto) que não tem dificuldades com autoridades absolutas sem explicação?;
4- Uma criança a esperar numa fila é sempre uma coisa complicada, acho eu;
5- Quando as crianças não estão com os amigos, não é de espantar que fiquem mais retraídas, o convívio na escola não é, pelo menos ao inicio, fácil para todos e outros factores podem originar este comportamento;
6- Quanto à culpa, dependendo da idade, convém até que exista, até porque é um sentimento normal e estruturante do que se deve ou não fazer. Uma criança que não responde à ameaça da chegada do pai provavelmente não reconhece a sua autoridade;
7- Qualquer criança geralmente sabe dizer o que quer…nem que seja fazendo birras.
Como se vê, as próprias características de uma criança índigo são suficientemente amplas para incluir qualquer criança. Mas ainda falta um critério importante; a aura.
Auras
As auras são supostamente emanações de objectos, como se fossem energia. Dizem os paranormais que as cores das auras indicam personalidade das pessoas ou problemas que a pessoa tenha. Naturalmente, nada disto foi alguma vez comprovado, antes pelo contrário. Existem pessoas que dizem ser capazes de ver auras. Isto explica-se de várias formas, desde problemas em termos de percepção, enxaquecas, problemas no sistema visual ou dano neurológico. Qualquer um, mesmo sem ter estes problemas ou capacidades paranormais, pode ver auras: Basta olhar para um objecto ou pessoa, contra uma superfície clara, numa sala escura. O fenómeno deve-se a fatiga na retina e a outros factores ligados à percepção. Não a coisas do outro mundo. Uma suposta forma de registar auras é a chamada fotografia Kirlian. A fotografia é feita aplicando um campo eléctrico a um objecto numa placa fotográfica. Contudo, também isto é facilmente explicável: o que é registado é fruto da electricidade, pressão, humidade e temperatura. “As coisas vivas são…húmidas. Quando a electricidade entra no objecto vivo, produz uma área de gás ionizado à volta do objecto fotografado, assumindo que há humidade no objecto. Esta humidade é transferida para superfície do filme fotográfico e causa uma alteração no padrão da carga eléctrica no filme. Se a fotografia for tirada no vácuo, onde não há gás ionizado, não parece nenhuma imagem Kirlian”(3) ou seja, se a aura fosse uma energia paranormal, manter-se-ia mesmo no vácuo…
O Problema com as Crianças Índigo
Como vimos, as supostas características de crianças índigo são também as de crianças não índigo. Por outro lado, a ênfase dos defensores deste fenómeno tem a ver com as características de dificuldade de estar quieto, desafio à autoridade, serem crianças muito inquisidores, não conseguirem estar a fazer a mesma tarefa muito tempo. Estas características podem indiciar uma perturbação de hiperactividade. Nunca é fácil para um pai saber que o seu filho tem problemas a este nível, daí ser mais fácil acreditar que este afinal é “especial” e que tem um “tarefa” a desempenhar no mundo. O problema é que ao assumir que tem um filho índigo pode estar a prejudicá-lo, negando-lhe apoio especializado e científico baseado numa crença sem qualquer tipo de validade. Ao não conseguir aceitar a realidade pode estar a prejudicar ainda mais o filho. Para além disso, ao que parece as supostas crianças índigo não devem ser disciplinadas…Ora isto também é perigoso. A educação faz-se de amor, mas também de regras e de respeito pela autoridade. Um filho que não tem culpa pelo que fez, que tanto se lhe faz se o pai vai ralhar com ele ou não, tem dificuldade em funcionar em sociedade, que, quer queiramos ou não, tem regras e hierarquias.
Pode parecer mais interessante pensar que uma pessoa que ouve Deus a falar com ele é um profeta e não uma pessoa com problemas psiquiátricos. Pode parecer mais reconfortante pensar que um filho é uma criança índigo e não uma criança com um problema de hiperactividade. A questão é que o podemos prejudicar ou ajudar, consoante acreditamos no que nos diz o defensor dos índigos ou o médico…
Referências:
(1) http://skepdic.com/indigo.html
(2) http://www.indigochild.com
(3) http://skepdic.com/auras.html
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O poder de um telemóvel
terça-feira, 25 de março de 2008
Se não houvessem telemóveis, a triste cena no Carolina Michaelis não teria acontecido. A aluna não teria ficado destroçada pela apreensão do seu, o vídeo não teria chegado ao You tube e daí à comunicação social. Malditos telemóveis…Ou o telemóvel é apenas um pormenor?
Neste caso específico, o telemóvel é mais que um pormenor, dada a sua capacidade actual de registar vídeo. Se o aluno não tivesse gravado aquela triste cena, eu hoje estaria a escrever sobre outra coisa qualquer. A questão é que, ao que parece, cenas daquelas acontecem todos os dias. Esta em particular só se tornou digna de registo porque havia alguma coisa para ver.
Uma foto vale mais que mil palavras. Um vídeo feito com telemóvel vale muitas mais palavras, escritas e ditas. Vale muitos minutos de prime-time televisivo.
A questão da indisciplina nas salas de aula é um problema multidimensional. Não passa só pelas características do docente (mais ou menos permissivo, mais ou menos experiente), pelas características dos alunos, pelas características da vida moderna (que até inventou telefones que cabem num bolso das calças), pelas características da própria escola (parecendo que não, as condições mais ou menos agradáveis de uma sala de aulas podem potenciar a distracção e comportamentos disruptivos), os estilos educativos dos pais dos alunos (ou pura e simplesmente a ausência destes) e, só para referir mais uma dimensão, a adequação dos programas e das disciplinas às necessidades e aos interesses dos alunos.
Não nos façamos paladinos da moral e do bom comportamento nas salas de aulas. Eu assumo ter, por exemplo, mascado pastilhas elásticas nas aulas, quando isso ainda era um crime de lesa pátria e sinal de falta de educação. Não sei se o fazia por desafio, sei que por falta de educação dos meus pais não era, talvez fosse porque gostava dos “gorilas” de boa memória. Isto para dizer que a indisciplina na sala de aula há-de sempre existir, apenas mudam alguns dos artefactos que servem de “culpado”, de coisa interdita (uma pastilha elástica ou um telemóvel). É que quando há uma proibição, a tendência natural é a revolta contra essa proibição. São proibidos os telemóveis? “Agora é que vou usá-lo na sala!” pensará o adolescente. Se os interditos forem objecto de discussão e negociação (o quanto baste, claro, que há uma hierarquia a obedecer e não estamos num plenário do PREC), algumas destas situações podem ser atenuadas.
Também têm mudado, pela negativa, o grau de intensidade da indisciplina e as consequências destas. Seria impensável para mim não obedecer a uma ordem de um professor. Se o fizesse, seria sujeito a “julgamento” pelos meus pais. Se eu fosse a aluna deste caso, nunca mais punha a vista em cima ao meu telemóvel…na melhor das hipóteses.
Para além disso, é preciso não esquecer os efeitos que estas situações têm nos professores. A profissão é de si difícil. Ter de ensinar a turmas com dezenas de alunos, em plena explosão das hormonas é difícil. Com telemóveis ainda mais. Com alunos de origens muito diferentes, pior ainda. A massificação do ensino foi uma coisa boa, à priori. Mas também trouxe problemas novos. Um professor sujeito a este tipo de pressão hora após hora, dia após dia, maltratado por baixo (os alunos) e por cima (quem neles manda) pode desenvolver o que chamamos “burn out” ou seja ficar “queimado” pelo trabalho. Pode desenvolver perturbações ansiosas e depressivas. Desmotivar-se. Faltar. Ser professor, hoje em dia, é uma profissão de risco psicológico. É necessário repensar a politica de disciplina nas escolas, conjugar o diálogo com a autoridade, apoiar os professores e os alunos com dificuldades de vária ordem. Isto não vai lá com fascismos na escola, mas também não vai lá com este “laissez faire” generalizado.
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Moisés se calhar andava a «surrealizar por aí»
segunda-feira, 17 de março de 2008
Um professor de psicologia cognitiva de Israel afirmou (eu diria mais especulou) que Moisés estaria sob o efeito de substâncias alucinogéneas quando apresentou os 10 mandamentos ao descer do monte Sinai, quando viu a sarça ardente, etc. Não deixa de ser uma especulação engraçada...
Um lugar comum de qualquer cronista quando lhe falta assunto é escrever sobre a falta de assunto. Ora este cronista, consegue fugir a este «drama». Basta-lhe ir ver o que se passa na secção «Acredite se quiser» do PortugalDiário. Sempre é mais arejado, eventualmente engraçado e até pode ser ponto de partida para reflexões mais ou menos profundas. Foi lá que descobri que Moisés se calhar andava a «surrealizar por aí» e de caminho ajudou à criação de uma religião.
Moisés a «tripar» com alucinogéneos acaba por ser uma imagem, mesmo para um católico (renitente, é certo) como eu, muitíssimo engraçada. Bastou-me deixar a imaginação fluir e de repente estavam os 12 apóstolos a partilhar um charro. Afinal, a cannabis já era conhecida e utilizada naquela altura...
Não é minha intenção ofender quem quer que seja, mas é um facto que quando se fala de religião (pelo menos da dominante no ocidente) de forma, digamos, menos ortodoxa, é quase certo que cai o Carmo e a Trindade... Aliás, parece quase uma evidência científica que se pode brincar com qualquer coisa, menos com a Religião. Que o diga o Herman José a sua rábula da última ceia (que, já agora, foi escrita pelo pessoal das Produções Fictícias).
A religião, as crenças religiosas, parecem ser assunto tabu. Parece que não se pode debater a realidade histórica de verdades de fé dum ponto de vista científico. Há quem diga que isso deve ficar no âmbito da fé, outros vão argumentando que mesmo as questões de fé podem e devem ser analisadas (como qualquer «artefacto» ou «produção» humana) dum ponto de vista científico. Que o diga, por exemplo, Richard Dawkins, o ateu mor da actualidade, por via do seu livro «A Desilusão de Deus».
Em países cristãos, esta possibilidade de uso de alucinogénios por parte de Moisés para ver sarças ardentes, falar com Deus, receber instruções deste, até mesmo separar as aguas de um rio, são um sacrilégio, uma ofensa «pessoal» a quem acredita na «verdade» escrita na Bíblia. Vai, afinal de contas, contra as crenças e a fé de quem se sente ofendido. Mas reflictamos: Buda também chegou a conclusões que a nós, filhos da tradição judaico-cristã, nos parecem estapafúrdias. Os Hindus têm até um deus que tem cabeça de elefante. Se até pode ser legitimo, pensando racionalmente, que alguém andava drogado para ver cabeças de elefante ou chegar à conclusão que vivemos várias vidas (e que se calhar ainda acabamos como uma barata por nos termos portado mal antes), porque não colocar a hipótese de que Moisés estava a «tripar» e deu-lhe para falar com Deus e ver sarças ardentes?
Isso nem pensar! Claro! É que o nosso deus, a nossa religião é a certa e os outros estão todos errados. Mas, certamente, se eu tivesse nascido numa família Hindu, acreditava em Shiva e nos seus vários braços. Isto para dizer que a religião é uma coisa aprendida.
Naturalmente acho que devemos respeitar as crenças religiosas. Mas também acho que isso não é incompatível com um escrutínio científico de certas afirmações, com colocação de hipóteses que até podem ter alguma razão de ser. Nomeadamente que Moisés talvez tomasse substâncias alucinogénicas. Isso pode ajudar-nos a entender melhor esse fenómeno humano universal que é a religião. Repare-se que ainda hoje, muitas pessoas ao tomarem drogas psicadélicas têm experiências de âmbito espiritual como falar com deus. Outras pessoas, mesmo sem drogas, falam com deus e ele responde. Geralmente são encaminhadas para o psiquiatra... Que seria feito das religiões se houvesse psiquiatras há uns milénios atrás?...
Um amigo meu diz que o ser humano é delirante, acredita em coisas tão extraordinárias como deuses elefantes; filhos gerados sem sexo; vinho que é sangue e pão que é carne. Mas estes «delírios» partilhados e transmitidos culturalmente têm várias funções que até podem ser positivas. Ou negativas. O facto é que existem. Tenha Moisés «metido» coisas parecidas com LSD ou não. Dá que pensar...
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Quando os pais se divorciam
quarta-feira, 5 de março de 2008
O conceito de família tem-se alterado significativamente na nossa sociedade. Os casamentos já não são para a vida toda, as pessoas casam-se várias vezes e têm filhos de diversos casamentos. Como lidar então as situações de divórcio ou separação, de forma a proteger os filhos?
Há que ter em conta que a relação conjugal é diferente da relação parental. Estão interligadas, mas devem manter-se separadas. Muitas vezes os pais mantém-se casados e infelizes em função dos filhos. Isto não é saudável. Não é liquido que se protejam os filhos assim – por mais cuidado que exista é inevitável acontecerem discussões ou o relacionamento não ser o melhor, com pouca comunicação e frieza – e mantêm-se pelo menos duas pessoas infelizes.
Quando se pondera um divórcio ou separação, a menos que não haja outra solução, pode ser útil recorrer a um psicólogo, para que, com a ajuda de uma terceira pessoa que está de fora, se possa chegar a uma decisão. Por vezes há a possibilidade de melhorar o relacionamento e resolver as questões que o estão a prejudicar, por vezes a separação é o melhor caminho. Contudo, seja qual seja a decisão, esta deve ser pensada e negociada e até mesmo preparada e planeada, de forma a evitar efeitos nefastos não só nas pessoas que constituem o casal como também nos filhos e outros familiares - isto porque, naturalmente, uma situação de rotura pode afectar os pais ou sogros do casal.
Tendo-se chegado a uma decisão de separação – e até mesmo antes desta – há que comunicar adequadamente com as crianças ou adolescentes. As crianças apercebem-se de que alguma coisa não está bem e convém que lhes seja explicado que o problema não é deles, mas sim dos pais. Que os casais às vezes discutem, como eles às vezes discutem com os amigos. Que eles não são responsáveis pelo que se está a passar, o que é muito comum acontecer na cabeça das crianças. A comunicação é tanto mais importante em filhos com idades mais avançadas, já que a separação dos pais será certamente sentida como negativa e poderá ser geradora de dor.
Tipicamente, há a tendência por vezes de triangular os filhos, ou seja, desabafar com eles, tentando colocá-los de um ou outro lado. Falar mal da mãe ou do pai ao filho é negativo e deve ser evitado. Ao se fazer isso, coloca-se o filho numa situação muito difícil. Afinal gosta dos dois e está a ser-lhe pedido que tome partido. Da mesma forma, pode ser destrutivo perguntar a uma criança de quem é que gosta mais, se do pai se da mãe. Imaginem se um dos vossos filhos lhes perguntasse de qual dos irmãos é que gostam mais…
Não tenhamos ilusões: uma situação de rotura será sempre difícil para toda a gente. Se se tornará problemática, isso dependerá de como as coisas forem conduzidas. A primeira regra, como já referido, é a separação dos papéis. Uma coisa é ser pai, outra é ser marido. Assim sendo, as questões relacionadas com um ou outro papel devem ser abordadas e tratadas nesse âmbito. Dizer que o pai foi infiel quando se está a discutir para que colégio vai o filho não faz sentido.
Da mesma forma, há que evitar interferências exteriores ao casal. Nestas situações muitas vezes os sogros ou pais tentam intervir ou tomar partidos. Novamente, o problema é do casal e deverá ser resolvido por ele, eventualmente com ajuda especializada.
Acima de tudo, há que ter consciência de que apesar da relação conjugal ter terminado, ainda há a relação parental. Nesse sentido, os pais deverão manter uma comunicação e relação adequada no que diz respeito aos filhos. Isto envolve naturalmente muita negociação, daí a importância de se conversar e planear adequadamente todas as questões práticas: Tempo com os filhos, custódia, alturas de festas como Natal, aniversários, etc. Se houver um plano previamente definido e negociado em relação as estes aspectos, poder-se-á diminuir eventuais tensões. Mas isto não quer dizer que não haja espaço para a flexibilidade. Tudo dependerá do novo tipo de relação que é construída entre o ex-casal.
Resumindo, estas pequenas dicas resumem-se a duas coisas: comunicação adequada e relacionamento se não bom, pelo menos cordial.
No que diz respeito aos indivíduos durante ou depois da separação, é vulgar que as pessoas se sintam deprimidas ou ansiosas. Afinal, terminou-se uma relação que seria para toda a vida. Nestes casos pode ser útil o recurso a um psicólogo. Recomendo a leitura do artigo “Quando o amor acaba” disponível no meu site e que versa sobre essa situação.
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Apoio para Filhos de Pais Separados e/ou divorciados
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Porto e Vila Real
Introdução:
Hoje em dia, o divórcio e a separação tornou-se cada vez mais frequente. Quando existem filhos do casal em separação, muitos desafios se colocam, principalmente no que diz respeito ao seu bem-estar. Uma situação de separação dos pais pode originar mal-estar psicologico, problemas de aprendizagem, alterações de comportamento, pondo em causa o desenvolvimento adequado das crianças. Neste sentido, oferecemos uma intervenção dirigida a filhos de pais separados e/ou divorciados cujo objectivo principal é a prevenção destes problemas. Mesmo que as crianças não apresentem problemas de ordem emocional ou de aprendizagem esta intervenção pode prevenir dificuldades futuras.
Objectivos:
Promoção da saúde com o objectivo de enfrentar de uma forma funcional as situações que induzem stress ou dificuldades de ajustamento, nomeadamente desenvolvendo a comunicação, as capacidades de resolução de problemas, enquadrar as experiências afectivas e melhorar as possibilidades de apoio.
Organização:
Programa Individual : Todas as sessões são realizadas individualmente
Programa Grupal: Número mínimo de 5 crianças para inicio da intervenção. Máximo de 8 elementos por grupo. As sessões iniciais de avaliação são realizadas individualmente.
Duração das sessões: 60 a 90 minutos, semanalmente
Sessões 1, 2, 3: Entrevista e avaliação psicológica. Informação aos pais acerca dos resultados.
Sessão 4: Divórcio e mudanças
Sessão 5: Divórcio e transformações familiares
Sessão 6: Sentimentos relacionados com o divórcio - Tristeza
Sessão 7: Sentimentos relacionados com o divórcio - Medo
Sessão 8: Sentimentos relacionados com o divórcio - Raiva
Sessão 9: Sentimentos e comportamentos perante o silêncio dos pais
Sessão 10: Situações do dia a dia: Vivendo com pais separados
Sessão 11: Vivendo num mundo em mudança
Sessão 12: Fontes de apoio
Sessão 13: Conclusão do processo
Resultados Esperados:
A investigação tem demonstrado que esta intervenção oferece " um contexto flexível e favorável que ajuda a criança ou o adolescente “normalizar” a situação, romper segredos, diferenciar aspectos sobre os quais tem ou não controle. Pode, assim, reforçar o lócus de controle interno, favorecendo a compreensão de processos e motivações envolvidas e elaborar os sentimentos subjacentes – principalmente tristeza, medo, raiva e culpa – atuando sobre as perdas e mobilizando novas fontes de apoio.
Uma avaliação quantitativa por meio de escalas padronizadas - Inventário de Ansiedade Traço-Estado (Biaggio, 1983); Escala de Stress Infantil (Lipp e Lucarelli, 1998); Transtornos de Déficit de Atenção (Benczik, 2000) - têm sido realizada nos grupos em escola. Imediatamente e após 6 meses de intervenção, identificou-se redução de depressão e ansiedade, melhora no desempenho escolar e nos relacionamentos em geral (Fillipini, 2003).
Nossa prática levou-nos a conclusão de que os grupos de apoio constituem trabalho preventivo privilegiado, pois possibilitam o conhecimento da situação, facilitam a elaboração dos sentimentos contraditórios vivenciados, fomentam o diálogo (inclusive o familiar) e a elaboração da crise, prevenindo maiores comprometimentos"
In Souza, R.M., (2005) . GRUPOS DE APOIO PARA FILHOS DE PAIS SEPARADOS E DIVORCIADOS. Trabalho apresentado no II Congresso Hispano-Portugues de Psicologia
Honorários:
Programa Individual: 40 euros por sessão (13x40 = 520 euros)
Programa Grupal: 40 euros por sessão de avaliação (3x40=120) + 25 euros por sessão grupal (10x25= 250) Total: 370 euros
Os honorários podem ser pagos mensalmente, no inicio de cada mês.
Responsáveis:
Dra. Sónia Rodrigues
Licenciada em Psicologia pela Universidade de Coimbra
Mestre em Psicologia da Saúde pela Universidade do Porto
Detentora do Grau de Especialista em Psicologia Clínica pelo Ministério da Saúde
Dr. Victor Silva
Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto
Mestre em Psicologia do Comportamento Desviante pela Universidade do Porto
Contactos para inscrição e informações complementares:
victor.silva@tvtel.pt ou 966167563
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Futebol e Psicologia
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
A importância do Balneário. A chicotada psicológica. O grupo coeso. É preciso proteger a equipa. As estrelas da companhia. A pressão é importante. A pressão é demais. Não há pressão. É preciso pressão. O árbitro falhou. O árbitro acertou. O jogador não está bem. Paulo Bento tem condições. Paulo Bento não tem condições. Frases típicas quando discutimos ou vemos futebol. Mas será que estamos a ver mesmo o que achamos que estamos a ver quando assistimos a um jogo de futebol?
Há quem diga que se pode mudar de casa, de esposa, de carro, mas que não se muda de equipa de futebol. Até mesmo de religião se muda, mas se conseguisse com que um benfiquista se tornasse portista, eu ganharia certamente o Prémio Nobel da Psicologia, caso existisse.
A meu ver o futebol é uma demonstração do funcionamento grupal do ser humano. Antes haviam clãs, agora os clãs são as equipas de futebol. Antes havia guerras religiosas (bem, pelos vistos ainda hoje…) mas cada vez há mais guerras de adeptos de futebol. Todo o nosso funcionamento psicológico e social surge mais visivelmente quando se debate ou assiste a futebol (naqueles que gostam de futebol). Inclusivamente, se calhar é das actividades humanas onde erros de processamento cognitivo são mais facilmente identificáveis. Basta pensar a quantidade de vezes que chamamos “cego” ao árbitro. Será que ele não viu aquela “falta gravosa” ou será que nós é que vimos o que queríamos ver?
Imaginemos um cenário: Num Benfica-Porto, o Quaresma cai numa disputa de bola com o Rui Costa. Aposto o que quiserem que a maioria dos portistas vai gritar “falta!” e a maioria dos benfiquistas vai gritar “Fingiu! Amarelo!”. O acontecimento é o mesmo. Objectivo. Mas a questão é que provavelmente, mesmo depois das repetições em câmara lenta, a divergência na análise da situação vai manter-se. Num primeiro momento, chegamos a conclusões sem ter provas suficientes (afinal, a jogada foi tão rápida, que nem vimos bem) e as nossas crenças “o Quaresma atira-se sempre para o chão” ou “o Rui Costa não faz faltas” determina a nossa conclusão. Num segundo momento, depois da repetição, a divergência mantém-se. É que mesmo com provas (neste caso, e sendo eu portista, imaginemos que foi mesmo falta), o Benfiquista terá tendência para confirmar as suas expectativas. É que nós temos a tendência para ver nas situações aquilo que estamos à espera. No amor, uma pessoa insegura interpretará um sorriso de uma mulher como sendo de gozo. Uma pessoa segura interpretará como sendo um convite. E o sorriso é o mesmo. Nem sempre o que vemos é a realidade. Nós construímos a realidade de acordo com expectativas, aprendizagens, experiências passadas, crenças, desejos, medos.
Mas há mais no futebol: vamos aos melhores jogadores em campo ou aos piores em campo. Na Psicologia Cognitiva há uma coisa chamada “Abstracção Selectiva”. Trata-se de nos concentrarmos num pormenor, esquecendo o conjunto da situação. Por exemplo: O Lucho Gonzalez faz um péssimo jogo. Perde a bola, falha passes constantemente. Mas eis que , nos últimos 10 minutos, marca 2 golos de “bonito efeito” como dizem os comentadores. A probabilidade de nos concentrarmos nesses 10 minutos esquecendo os restantes 80 é grande. De pior jogador, pode passar facilmente a melhor jogador. A mesma coisa pode acontecer ao contrário: O Luisão faz um jogo irrepreensível, mas foi ele que perdeu a bola nas duas vezes em que o Lucho marcou. Facilmente passa de herói a besta.
Este tipo de coisas pode acontecer a árbitros. Um árbitro pode fazer sobregeneralizações: percebeu que um jogador atirou-se ao chão de propósito e então interpreta cada queda desse jogador como sendo teatro, mesmo que não o seja. A partir de um acontecimento, generaliza aos outros. O mesmo pode acontecer a jogadores, que falham um penalti e depois acham que irão falhar sempre os penaltis.
Como se vê, há muito de psicologia no futebol, dentro e fora de campo. Até mesmo nas perguntas dos jornalistas: Ao perguntarem insistentemente se o Paulo Bento tem condições para continuar, estão a dizer que acham que não tem. Se ele for despedido, confirmarão as suas expectativas. Se não for, racionalizarão de outra forma, explicando a permanência duma outra forma, não necessariamente relacionada com as condições iniciais…
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PsicoAstrólogos e afins
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
É uma tendência preocupante e, na minha opinião, perigosa para as pessoas que servimos. Cada vez se encontram mais psicólogos (serão mesmo?) que afirmam utilizar a Astrologia como ferramenta de diagnóstico. Outros abraçam acriticamente, como se de grande saltos paradigmáticos se tratasse, coisas como Crianças Índigo, auras, terapias de vidas passadas e outras irracionalidades.
A Psicologia é uma ciência social, jovem. Mas isso não quer dizer que não tenhamos intervenções e formas de trabalhar validadas cientificamente, comprovadas. Mais que do que isso, ao nível da psicoterapia, sabemos inclusivamente que vários factores influenciam o resultado da intervenção, nomeadamente o estilo pessoal do terapeuta e a qualidade da Aliança Terapêutica. E trabalhamos com isso. Afinal, enquanto psicólogo, gosto de me ver enquanto um profissional da relação. Mas um profissional que utiliza técnicas validadas, prepara previamente a intervenção, realiza uma avaliação do cliente que tem à frente – que é sempre sujeita a alteração no decorrer da intervenção – e adequa o que faz não só ao problema apresentado por quem me procura, mas também às próprias características da personalidade dessa pessoa. Tudo isto recorrendo ao conhecimento científico que a minha ciência tem produzido, tem provado ser eficaz e explica satisfatoriamente o funcionamento humano.
Assumo-me, enquanto profissional, numa perspectiva construtivista-desenvolvimental. Mas atenção que sou um construtivista crítico. Existe uma realidade externa a nós, embora a construamos e a vejamos de acordo com a nossa história de vida. Daí também a importância do desenvolvimentalismo, no sentido de perceber como aquela pessoa construiu a visão do mundo, de si próprio e dos outros ao longo da sua história de vida, naturalmente prestando muita atenção aos estilos de vinculação que o cliente apresenta e como estes foram desenvolvidos.
Faço este parêntesis mais teórico para chegar a outro ponto: Os exageros do pós-modernismo, onde por exemplo, incluo o construtivismo radical. Uma coisa é dizer que construímos a realidade, outra é dizer que não há realidade. Uma coisa é dizer que a Aliança Terapêutica é fundamental num processo de consulta psicólogica, outra é dizer que isso é suficiente. Basta pensarmos que para criar uma boa relação temos de perceber como funciona o cliente – o que nos remete para o estudo das dimensões da personalidade – para chegarmos à conclusão de que precisamos, e devemos utilizar, o conhecimento científico que foi desenvolvido nesta área. Consulta Psicólogica não é uma conversa de amigos (também há relação nesta) é uma conversa que tem objectivos e é feita de acordo com esses objectivos.
Do ponto de vista das técnicas que utilizo, sou eclético (ou integrador, se quiserem) subordinando-as à metateoria assumida, em que pretendo promover o desenvolvimento da pessoa que tenho à minha frente, num trabalho de reconstrução de significados não viáveis ou que não permitem a adaptação a novas circunstâncias de vida. O Ecletismo ainda é uma palavra perigosa. Com alguma razão, pois por vezes cai-se no “tudo vale”, em intervenções desconjuntadas sem uma linha de rumo. Mas assumo-me enquanto tal, porque acho que, a bem das pessoas que sirvo e das quais recebo pagamento pelos serviços, devo utilizar o que de melhor tenho à minha disposição. E se uma intervenção/técnica é comprovadamente útil e recomendada para determinado problema utilizo-a, sempre num contexto em que faça sentido para o cliente. É que também existem colegas que caem na passagem de técnicas, como há quem caia na passagem de testes. São instrumentos, não um fim em si mesmos.
Tudo isto para explicar porque é que a ciência é importante e como esta não é contra os interesses dos psicólogos, mas sim a favor deles – enquanto profissão que pode responder ao que lhe é pedido – mas também a favor dos clientes, que procuram ajuda para viver melhor. Não andamos a vender aspiradores porta a porta, onde tudo vale para convencer alguém a comprar. Lidamos com pessoas. E devemos, nem que seja por razões de consciência, utilizar coisas que funcionam, não coisas que podem até prejudicar a pessoa.
Vamos então à Astrologia. Não vou explanar aqui exaustivamente as razões porque NÃO é uma ciência (talvez fique para um próximo artigo). Basta dizer que nunca foi comprovada empiricamente, que o próprio modelo cosmológico de influência dos astros está ultrapassadíssima – há mais planetas, não contempla, por exemplo, outros objectos como meteoros ou cometas, etc. No contexto da descrição das supostas personalidades deste ou daquele signo, é também fácil perceber, desde que se esteja atento, que através de uma boa utilização discursiva, para cada característica existe também o seu oposto – por exemplo, que a pessoa de tal signo é “amiga dos outros, dada e gosta de se relacionar” mas também que é “senhora do seu nariz e muito cuidadosa nos amigos que escolhe”. Em que ficamos? É senhora do nariz ou é dada? Relaciona-se com todos ou só com quem passa o seu crivo de exigência? Façam o exercício com os vossos signos e vejam o que corresponde. E, de resto, temos a tendência para validar os acertos e esquecer os tiros ao lado. Bem como para, a partir de uma informação generalista, que encaixa em qualquer pessoa, vermos as nossas características.
Quais são então os riscos? Já vimos que a Astrologia não tem validade. Mas não será só uma brincadeira? Bem, se a virmos como brincadeira, tudo bem. Também é verdade que devemos respeitar as crenças das pessoas (se bem que por vezes tenha dificuldade com esta asserção – deverei respeitar a crença de que as pessoas de cor são menos inteligentes?). Uma coisa completamente diferente é utilizar a Astrologia enquanto instrumento de avaliação ou intervenção. Já repararam que, ao fazer uma análise de personalidade baseada na astrologia, estarão provavelmente a colocar o controlo dos actos, pensamentos, formas de ser e estar numa coisa fora do cliente? Em estrelas e planetas? Isto ajuda em alguma coisa a auto-determinação da pessoa? Dá-lhe poder sobre a sua vida? Fa-la-á esforçar-se e trabalhar para modificar as coisas ou entrar num discurso redondo de “tudo depende do mapa astral” ou dos ascendentes ou…
A resposta típica é que a Astrologia “dá tendências”. Muito bem, a psicologia também prevê tendências de funcionamento. Mas há uma diferença: A Astrologia não tem base científica! A Psicologia sim. Não conheço estudos sérios de astrólogos, conheço imensos de psicólogos. Porque existirão psicólogos (ou melhor, licenciados em psicologia) que usam estas coisas? Prefiro pensar que se tratam de crenças da pessoa, no lugar de pensar que é apenas uma estratégia comercial. Mas mesmo assim, isso, para mim, é impingir uma crença pessoal noutra pessoa. Isso não é, de todo, Psicologia. Se fossemos por esse caminho, eu, que hipoteticamente seria Hindu, também estaria legitimado a impingir a minha crença religiosa num cliente católico. Não é isso que fazemos, isso não é Psicologia.
Psicologia é auxiliar as pessoas que nos procuram, utilizando técnicas, modelos de intervenção validados. Estudados exaustivamente, com estudos em que há um grupo de controle, replicados. Com estudos de caso devidamente desenhados e avaliados. Não é recorrer a irracionalidade (lembram-se das crenças irracionais e pensamentos automáticos dos cognitivistas?) que nunca foram provadas seja de que forma seja e que, mais que isso, podem ter resultados catastróficos no bem estar de uma pessoa. Quando vão ao médico preferem que este vos dê um medicamento que foi estudado ou que ele aconselhe que bebam água que foi energizada pelos astros? É a mesma coisa.
Se por acaso quem me lê é uma pessoa à procura de ajuda psicológica, lembre-se de que tem o direito de perguntar como trabalha o psicólogo a quem vai recorrer, se o modelo que segue tem validade. Pode também indagar sobre a formação que o técnico tem e onde a adquiriu. Desconfie se lhe falarem de astrologia (se é isso que procura, mais vale ir ao astrólogo), crianças índigo, vidas passadas e coisas que tal.
P.S.- As outras irracionalidades ficam para outros artigos.
Publicada porVictor Silva à(s) 18:27 2 comentários
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