Ian Curtis: Prazeres (Des)Conhecidos

Está nos cinemas o filme “Control” de Anton Corbijn, uma “biopic” de Ian Curtis, o vocalista dos famosos Joy Division. A preto a branco, na minha humilde opinião brilhantemente filmado, o filme foi para mim mais que o relembrar a vida de um dos ídolos da minha adolescência, cuja música há muito não ouvia. Foi também o início de uma viagem por outras músicas, pelo passado, com o regresso ao presente sonorizado por bandas de sempre.

Comecemos pelo filme. É ele que dá o mote. Descreve a vida, duma forma digna, de um mito, como muitos músicos se tornam quando morrem, de seu nome Ian Curtis. Com o brilho só possível pela ausência da cor, sem artifícios à rock’n’roll típicas de filmes sobre estrelas da música, Anton Corbijn dá-nos um retrato sóbrio duma época, duma pessoa que o acaso (ou não) tornou uma das grandes figuras da cultura pop do século XX.
O preto e branco da fotografia coloca-nos mais perto – nem de propósito um dos discos dos Joy Division chama-se “Closer” – duma certa Manchester escura, depressiva. Duma vida rotineira, em que apenas a música fez um vulgar empregado de um centro de emprego escapar a uma vida como qualquer outra, de casamento e filhos. Música que o levou ao mito, mas também, talvez, ao suicídio.
As imagens, a forma como está filmado, captura – diria eu na perfeição – um ser torturado e dividido entre a esposa, a filha, a amante, a música. Captura a própria escuridão interior do protagonista que se revela nos céus nublados, noites frias e paredes escurecidas dos edifícios da cidade, sempre presente em plano de fundo.
Depois, a libertação dos fantasmas através da arte, da música e das letras. Belíssima, por tão simples e tão cheia de significado, a sequência em que discute com a mulher e começa a escrever num caderno as letras de “She’s lost Control”. Até essa libertação, a música, se tornar em si mesma uma prisão, com a ajuda da doença de que padecia. Aqui a deformação profissional leva-me a pensar que não era só de epilepsia que o Ian Curtis sofria. Mas também não devemos psicologizar tudo. O facto é que, e neste caso não há risco de estragar o filme contando o fim, Ian Curtis põe termo à sua vida, nas vésperas de iniciar uma digressão pelos EUA. Neste filme o que interessa não é o fim, é o próprio filme e a forma como está construído.
A sequências de concertos levaram-me, inevitavelmente, a trautear músicas há muito não ouvidas. “Transmission”; “She’s lost control” e principalmente “Dead Souls”. Do filme para a música, ou como um filme nos coloca mais perto da emoção da música. A bateria, o baixo, o inicio de “Dead Souls” ressoaram na minha cabeça duma forma inesperada. Instantâneo regresso a outros tempos, e também a outras músicas – duma altura em que não havia Internet, e-mule, torrents e coisas que tais. Duma altura em que se faziam grandes descobertas auditivas. Alguns se lembrarão da primeira vez que ouviram uma determinada música. Eu lembro-me, como se fosse hoje, de um amigo me trazer um CD dos Smiths e eu ficar completamente estarrecido, deleitado mesmo, com “There’s a light that never goes out”; com uma cassete já muito gasta do álbum póstumo dos Doors, “An American Prayer”, emprestada com ameaças de morte no caso da mesma se estragar por alguma razão, gravada a partir de um vinil também ele muito gasto (ainda não tinha chegado a época das reedições ad nauseum de hoje…) Eram objectos valiosos, essas cassetes que se emprestavam, gravavam. Hoje trocam-se CDRs. O acesso à música é muito mais fácil. Espero que a emoção da descoberta se mantenha.
O tom destas experiências e lembranças que se iniciam numa sala de cinema (ainda por cima silenciosa e sem barulhos de pipocas a serem devoradas) acabaram por dominar o resto dessa noite. Num bar ali perto dos Clérigos, escuro como eram os bares da minha adolescência, a “cheirar” àquele espírito “indie” de que tanto gostava, outras músicas surgiram. E, nem de propósito, depois de ter visto “Control”, ter-me lembrado de “Unknown Pleasures” e “Closer” (discos dos Joy Division) ouvi “Close to me”, uma daquelas músicas inesquecíveis dos The Cure. Mais uma para o cardápio de recordações quentes e aconchegantes, como quando olhamos nos olhos de uma mulher e parece que lhe descobrimos a alma.
As notas do baixo a surgirem, novamente o deleite auditivo, mental, no preciso momento em que me apercebi que estava a viver, no presente, mais um momento marcante. Um momento que recordarei mais facilmente um dia mais tarde, talvez depois de ter ido ao cinema, porque estava sonorizado com musicas de ontem que são de hoje e serão certamente de amanhã.
Músicas intemporais que nos colocam “Closer” de nós próprios…Ou “Close to me”. E nos revelam “Unknown Pleasures”. E pensar que às vezes nos esquecemos que elas existem…

Publicada porVictor Silva à(s) 18:02 1 comentários  

Conferência Internacional Segurança Urbana e Toxicodependências

Realiza-se esta quinta e sexta-feira (13 e 14 de Dezembro) a Conferencia Internacional Segurança Urbana e Toxicodependencias, na Câmara Municipal de Matosinhos. Eu serei o dinamizador de um dos workshops, designado "Música, Drogas e Contextos de Diversão" (ver resumo mais abaixo).

Uma comunicação a não perder será a do meu amigo Peter Van Dijk, do Trimbos Instituut, da Holanda, que falará sobre redução de danos naquele país e, mais específicamente, sobre o DIMS Project, a estrutura de testes a pastilhas que lá têm implementada e que já tive a oportunidade de visitar.

"Música, Drogas e Contextos de Diversão"
Resumo

A Música e as drogas sempre andaram juntas e estas sempre fizeram e fazem cada vez mais parte dos contextos de diversão. Faremos uma breve resenha histórica da associação da(s) música(s) às drogas durante o sec. XX, mostrando como estas últimas são tema habitual da música mais típica de diversas alturas históricas e relacionadas com a cultura, até chegarmos aos dias de hoje, mostrando como a alteração de consciência fez e faz parte, esteve e está presente, nos contextos de diversão.
Partindo da investigação realizada em contextos ligados à dance-music, debater-se-á o desafio de intervir nos contextos de diversão, abordando nomeadamente a extrema heterogeneidade destes contextos e das pessoas que neles se movem e os riscos de realizar intervenções desconjuntadas ou sem conhecimento aprofundado dos contextos que podem levar a efeitos iatrogénicos.
Finalmente, apresentaremos sugestões e pistas para uma metodologia que contemple não só a intervenção, mas que parta e se baseie no conhecimento de terreno, dando dicas acerca da forma, a nosso ver, mais adequada, de conhecer e intervir nos contextos de diversão.

Publicada porVictor Silva à(s) 00:30 0 comentários  

Prevenção das Toxicodependências

É um dos maiores medos dos pais: e se o meu filho se torna um toxicodependente? Existem vários factores de risco, mas também existem factores de protecção. E nunca é cedo demais para começar a prevenir não só o uso de drogas como outros comportamentos danosos para a saúde.

A prevenção das dependências para crianças é acima de tudo educação para a saúde. Ao ensinar o seu filhote a lavar os dentes, a fazer a higiene pessoal, a incutir o gosto pelo desporto, está a aumentar os factores de protecção. Isto não quer dizer que fiquemos com a certeza absoluta de que o seu filho nunca consumirá drogas, mas estamos a aumentar a probabilidade de que não o faça. Mas isso não basta: a criança precisa de um ambiente seguro, afectuoso mas com regras. Tem de ser acarinhada, mas também tem de saber o que não pode ou não deve fazer. Se quiser originar problemas de comportamento, problemas psicológicos, uso de substâncias e coisas que tal nos seus filhos, pode começar por não lhes dar atenção, por deixá-los fazer tudo o que querem, por substituir afectos por playstations, por não passar tempo com eles. Evite passear, brincar com o seu filho e castigá-lo quando se porta mal se quer aumentar a probabilidade de comportamentos negativos.
A investigação na área das drogas tem identificado consistentemente factores de risco e factores de protecção. Uma boa educação, uma boa prevenção da toxicodependência feita pelos pais deve aumentar os factores de protecção e diminuir os factores de risco. Existem factores de risco e protecção individuais, familiares, relativos ao grupo de pares, à escola e relativos à comunidade. Para simplificar as coisas, vou abordar os essencialmente os factores de risco e protecção familiares, escolares e de grupo de pares (amigos), que serão talvez os mais prementes para crianças e pré-adolescentes:

Factores de risco

Na Família:

• Uso de tabaco/álcool/drogas pelos pais (para uma criança isto normaliza e até reforça a ideia de que os consumos não fazem mal ou são uma coisa a imitar)
• Atitudes permissivas ou favoráveis ao desvio (uso de substâncias)
• Sobrelotação ou família numerosa
• Baixas expectativas de sucesso (próprios e filhos)
• Estilo permissivo ou autoritário (deixar fazer tudo ou não deixar fazer nada)
• Relações afectivas deterioradas ou inconsistentes
• Padrões de comunicação negativos (dizer, por exemplo: “Não prestas, não consegues” no lugar de “Falhaste mas és capaz de melhorar, eu ajudo-te”)
• Conflito familiar

No Grupo de pares (amigos):

• Integração em grupo de pares com consumo de substâncias ou conduta delinquente
• Atitudes favoráveis ao uso de substâncias
• Maior implicação no grupo do que na família

Na Escola


• Fracasso e abandono escolar
• Dificuldades nas transições de ciclo
• Organização e tamanho (grande) da escola
• Poucas oportunidades de participação e reforço

Factores de Protecção

Na Família:

• Supervisão e envolvimento dos pais nas actividades dos filhos (os dois pais, não só a mãe…)
• Estrutura familiar pequena (menos de 4 filhos, com pouca diferença de idade entre eles)
• Expectativas elevadas e realistas (Pode-se dizer que o Luizinho tem capacidade para chegar a médico, mas também é preciso dizer que terá de estudar muito para lá chegar)
• Estilo democrático (as regras devem ser claras e adequadas, até com alguma negociação, mas sem esquecer quem é que tem a última palavra)
• Família coesa e apoiante, com fronteiras claras (Pai é pai, é afectuoso, apoia, mas não é o coleguinha da escola…)
• Padrões de comunicação claros
• Tradições e rituais familiares (Jantar em família, festejar aniversários e outras ocasiões, passear ao Domingo, etc.)

No Grupo de Pares (amigos):

• Vinculação a grupo de pares “convencional” (pertença a grupo de amigos “normais”)
• Normas de grupo que não aprovam o uso de substâncias (quando se diz que o desporto previne o uso de substâncias, falamos não só do desporto em si, mas também dos valores do grupo que pratica desporto, em que na maior parte dos casos, o uso de drogas - legais ou ilegais – é mal-vista e que para além disso promove o trabalho em equipa, o respeito pelo outro, o lidar com o fracasso e a derrota, o investir para conseguir um objectivo)

Na Escola:

• Oportunidades de participação (possibilidade de entrar em actividades da escola – Jornal da escola, Clubes, etc)
• Reforço pela implicação na escola (os pais devem motivar os filhos a participar e devem recompensá-los – não necessariamente com prendas caras. Fazer com eles uma coisa que queiram – ir ao Jardim Zoológico ou ao Oceanário tem mais vantagens – até mesmo na relação pais-filhos – que oferecer uma playstation)


Como já referi, estas não são receitas para ser ou deixar de ser um consumidor de drogas (e quando digo drogas, também falo do tabaco e do álcool), existem muitos outros factores e é um facto indesmentível que em alguma altura da vida, os seus filhos terão contacto (diferente de consumo) com alguma droga. Um colega fumará, outro beberá ao sair à noite. Mas o seu filho optará mais depressa por não fumar ou por não beber (ou beber menos…) quando for adolescente se trouxer da base – da infância – factores de protecção fortes e poucos factores de risco.
E em relação às playstations (já que falei pelo menos 2 vezes nelas)…Também podem ser muito positivas! Jogar com o seu filho é mostrar que se interessa pelo que ele gosta, reforça a relação, é uma forma de estarem juntos numa actividade agradável e, claro está, também é divertido para si! Experimente e verá…


Obs: A descrição dos factores de risco e factores de protecção é baseada numa formação da Dra. Inês Abraão, psicóloga do Instituto da Droga e Toxicodependência - Delegação Regional do Norte.
Um sítio para os seus filhos consultarem, sobre drogas, é o
www.tu-alinhas.pt especificamente criado para jovens.

Publicada porVictor Silva à(s) 19:41 0 comentários  

Seminário R3: 1º Seminário R3 – três anos de “Riscos Reduzidos em Rede

Recebi informação sobre um seminário sobre Redução de Riscos que me pareceu interessante e que por isso divulgo aqui no meu blog. Irá realizar-se na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto no dia 16 de Novembro de 2007.


Programa Provisório
10h- Sessão de Abertura
- Dr. João Goulão* – Presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência
- Prof. Doutor Luís Fernandes – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto
- Dr.ª Paula Andrade – Responsável do Núcleo de Redução de Danos do Instituto da Droga e da Toxicodependência

11h – Pausa para café

11h30 – Apresentação do R3 e das suas actividades

12h – Apresentação de experiências inovadoras

- ARRIMO – Programa de Terapêutica Combinada na rua
- Check-in – CHECK-IN: Intervenção em contextos festivos – uma experiência Inovadora
- GIRUGaia – Programa de Troca de Pratas
- SMACTE – Equipa de Rua como potenciadora de novos projectos.
- Associação de Utilizadores de Drogas C.A.S.O (Consumidores Associados Sobrevivem Organizados)

Comentário e moderação de Dr. Jorge Barbosa – Director do Centro de Respostas Integradas Oriental do Porto

13h – Almoço

14h30 – A Aliança de Milão – Grupos de Trabalho

16h30 – Debate em grande grupo

Síntese de Dr. José Queiroz – coordenador da Agência Piaget para o Desenvolvimento (projectos CHECK-IN e GIRUGaia) e Comentário de Dr. Adelino Vale Ferreira* – Presidente da Delegação Regional do Norte do IDT.

18h00 – Encerramento

Padre Maia – Fundação Filos (projectos ARRIMO e Tudo sobre Rodas) 17 de Novembro de 2007

Para todos os interessados há também a possibilidade de participar numa acção de formação dedicada ao tema “Redução de Riscos associados ao uso de drogas e ao trabalho sexual” com os formadores Luís Fernandes, Alexandra Oliveira e Marta Pinto (docentes da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto).

* Presença por confirmar

Inscrições

Preços:
Seminário: 10€
Formação: 20€
Seminário e Formação: 25€
Inscrições devem ser efectuadas:
- E-Mail: riscosreduzidosemrede@gmail.com
- Telefone: 227332090 Fax: 227332099
- Correio: Rua Coração de Jesus, s/ n.º 4500-541 Paramos – Espinho

Importante:
Mencionar nome, instituição, funções desempenhadas, contacto telefónico, e-mail,
número de contribuinte, acção em que se inscreve.

Publicada porVictor Silva à(s) 18:33 0 comentários  

Quando o Amor acaba

É uma daquelas evidências da vida: Por vezes deixamos de gostar da nossa parceira ou vice-versa. Desde o drama adolescente da desilusão amorosa à separação e divórcio adulto, é um facto que o amor também pode morrer. Ou ser morto.

Somos seres relacionais e até mesmo do ponto de vista evolutivo, a própria perpetuação da espécie leva-nos a ter relacionamentos preferenciais com outras pessoas. Afinal, a cria humana é tão frágil que necessita de quem tome conte dela. Precisa de progenitores que estejam juntos, de preferência que gostem de estar juntos.
Naturalmente que não podemos esquecer os factores sociais, até mesmo religiosos que nos impelem para casais exclusivos, para a monogamia. E por vezes, o imperativo biológico de fazer passar o máximo possível dos nossos genes à geração seguinte entra em contradição com a monogamia. Mas não pretendo enveredar por uma análise evolucionista do “fenómeno” da extra-conjugalidade.
Ao longo do nosso desenvolvimento, vamos criando relações de vinculação com outras pessoas. Naturalmente, as primeiras relações são construídas com os nossos pais, ou com quem toma conta de nós. Contudo, por vezes, criamos relações de vinculação problemática. Se uma criança tem uma relação de segurança com os progenitores, irá criar uma relação de vinculação segura. Se, por outro lado, a coisa não correr tão bem, se os pais forem ausentes afectivamente, se forem contraditórios nos afectos (por vezes sendo próximos, por vezes sendo ausentes), a criança pode desenvolver outros estilos de vinculação.
Estes estilos de vinculação podem perpetuar-se ao longo do tempo. Ao vincularmos com outras pessoas, podemos replicar o que aprendemos antes. Na minha óptica, a vinculação é dinâmica, ou seja, a ideia de insegurança (quase sempre acompanhada por sentimentos de não ser desejável pelo outro) pode ser desconfirmada no contexto de uma relação segura. O inverso também pode acontecer.
Somos seres que aprendem e não esquecem algumas coisas. Ora façam lá um exercício: Ainda se lembram da primeira namorada a sério? Daquela de quem gostavam e suspiravam pelos cantos? Quando encontram uma pessoa parecida que coisas sentem? Ainda conseguem sentir o perfume da primeira namorada?
Isto para dizer que os nossos estilos de vinculação e a nossa história de vida influenciam o modo como nos vemos a nós próprios e aos outros. Marcam-nos. Fazem-nos o que somos, sentimos e pensamos.
Que tem isto a ver com o amor? Bem o amor é uma relação de vinculação muito forte. E às vezes também nos desvinculamos ou somos “desvinculados”.
Vários factores influenciam o fim de uma relação, das coisas mais pequenas como comportamentos insignificantes que tomam proporções desmesuradas até questões essenciais – diferenças no modo como se entende o mundo ou conhecer alguém com quem temos mais afinidade. E atenção que as pessoas mudam ao longo do tempo. Basta ver como muitos marxistas são hoje social-democratas. Num jogo interminável de relações de amizade e outras, vamos construindo e desconstruindo a nós próprios. Às vezes de forma positiva e adaptativa, às vezes de forma desadaptativa.
Tendo as relações amorosas o poder que têm, não é de espantar que, quando o amor morre ou é morto, possamos entrar em crise. Criamos relações de quase dependência (à partida uma relação menos boa) com alguém e esse alguém abandona-nos. Se tivermos estrutura psicológica adaptativa, depois da fase do luto – sim, as relações também têm luto – estaremos disponíveis para novas relações de vinculação. Se isso não acontecer – se, por exemplo, um estilo de vinculação mais problemática nos levar a pensar e a sentir que ninguém nunca mais nos quererá – temos um problema. E aí convém procurar ajuda profissional. Por vezes o sofrimento é tão atroz que essa ajuda é essencial. Para que a pessoa continue a poder relacionar-se adaptativamente com os outros.
As relações começam e por vezes acabam. Faz parte da vida. Mas por terem acabado, isso não implica necessariamente que somos defeituosos. Apenas não acertamos na relação, que implica não uma, mas duas pessoas. E uma delas nós não controlamos…

Publicada porVictor Silva à(s) 13:45 5 comentários  

Madeleine McCann e os “Spin Doctors”

“Spin Doctor” é como se fosse um assessor de imprensa, que tenta “virar” ou condicionar a agenda mediática e as notícias que saem ou vão sair. Tentam “vender o peixe”, minimizar danos de uma má notícia, aconselham os seus clientes na sua relação com a imprensa. Os pais de Maddie têm agora ao seu serviço um ex-spin doctor de Gordon Brown, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha. É uma escalada na luta mediática relacionada com este caso…


Uma coisa é certa: o caso Maddie ultrapassou há muito tempo o “mero” desaparecimento de uma criança (se é que há alguma coisa de “mero” num desaparecimento). Um dia mais tarde este caso será estudado nos cursos de comunicação social, jornalismo, relações públicas. Parece-me óbvio que para além da atenção mediática incrível que já define este caso, ou se calhar por causa disso mesmo, este acontecimento tornou-se uma verdadeira batalha mediática. Pelo menos da parte dos pais da criança há uma preocupação óbvia sobre o que se escreve, diz e aparece nos jornais, rádios e estações de televisão. Porquê? Percebo a lógica de manter o caso nas parangonas, numa (hipotética) esperança de que a miúda seja vista nalgum sítio. Na minha opinião, esta visibilidade toda só pode fazer mal. Ora coloquem-se na pele de um eventual raptor: o que faziam se a foto da criança que raptaram andasse em todo o lado há meses intermináveis? Ou não a deixavam sair de vossa casa ou então…acho que nem é preciso escrever a outra opção. Será que isto auxilia um eventual reconhecimento, partindo do princípio que se tratou de um rapto? Tenho muitas muitas dúvidas. Porquê então contratar assessores de imprensa?
Os spin doctors existem há muito tempo. Parece-me, contudo, que se tornaram figuras com visibilidade através de Alaistair Campbell, o spin doctor-mor e eminência parda de Tony Blair. Campbell, um ex-jornalista, juntou-se a Blair ainda antes deste se tornar primeiro-ministro e conduziu não só o seu relacionamento com a imprensa (ao que parece brilhantemente) como (parece-me) se tornou também um conselheiro incontornável, por quem tudo ou quase tudo passava. Definições de políticas, estratégias, gestão de egos e motivações pessoais de gente à volta de Blair (como o agora primeiro-minsitro Gordon Brown), etc. Pelo menos é o que interpreto do livro The Blair Years: The Alastair Campbell Diaries, um calhamaço com quase 800 páginas que é o responsável por andar a dormir pouco nos últimos tempos, tal a vontade de ler “só mais uma página” antes de dormir.
Durante a campanha eleitoral que levou Blair a primeiro-ministro, os Conservadores lembraram-se de mandar uma galinha andar atrás do que seria o futuro primeiro-ministro. A ideia era simples: chamar medroso a Blair, relativamente à autonomia da Escócia. O que fazer para que esta estratégia não funcionasse? Se Blair respondesse à provocação, os objectivos de John Major estavam atingidos. A estratégia adoptada foi simples e eficaz: Entrar na brincadeira. Numa acção de campanha, a galinha foi convidada a jantar com Campbell. Quando isso foi recusado, a equipa de Blair fez saber que a galinha tinha sido raptada pelos Conservadores, que não a deixavam fazer o que queria e que ela afinal queria passar para o lado dos trabalhista. Engraçado, não? A notícia que podia ser “Blair é um medroso” passou a ser um “fait-divers” engraçado e virado contra o autor: é que haviam deputados de Major que tinham passado para o lado de Blair. Como a galinha queria fazer. Spin doctorismo no seu melhor…
Especulando acerca do caso de Maddie, agora que os pais contrataram Clareance Mitchell ex-spin doctor de Gordon Brown (que também trabalhou com Blair, logo aprendeu com o mestre Campbell), e as recentes notícias de avistamentos em Marrocos, e-mails anónimo enviados para o Príncipe Carlos (porquê o Príncipe Carlos, porque não a polícia? Para dar mais cedibilidade? Para mais facilmente aparecer nas notícias? Porque foi mesmo assim?), ponho-me a pensar: Será que o alvo da galinha desta história (versão e-mail e avistamento) não será a polícia portuguesa?A regra do spin doctorismo é virar as notícias a favor de quem nos contrata. Não deixam de ser interessantes estas notícias de avistamentos e afins, agora que a atenção mediática está na suspeição sobre o casal McCann… Ainda estará? Ou está a virar outra vez para a possibilidade da criança andar por aí, à espera de ser vista? Curioso…


Publicada porVictor Silva à(s) 20:50 1 comentários  

Uma visita de estudo à Holanda

Em 2002 tive uma bolsa de estudo, atribuida pela União Europeia através da FESAT (European Foundation of Drug Helplines) para visitar a Holanda e ver "In Loco" como lidam com a droga e toxicodependência.
O relatório dessa visita está disponível aqui em Inglês e Francês (pdf), já que foi publicada na revista "Lines/Lignes". Descrevo não só o funcionamento da linha de ajuda a situações de droga holandesa, como também a política holandesa sobre drogas, o funcionamento dos famosos coffee shops, política e estratégias de prevenção, o funcionamento do sistema de testes às pastilhas de ecstasy e outras que lá está implementado, bem como as reuniões que tive com investigadores da Universidade de Utrecht e do CVO (Drug Research Institute) acerca do que se convencionou chamar "novas drogas"(mau termo, já que as novas drogas são velhas) ou novas tendências de uso de drogas, principalmente ao nível recreativo. Já tem 5 anos, mas muitas das conclusões a que cheguei na altura continuam actuais. Acho também que é um bom texto (que imodéstia...) para esclarecer muitas concepções erradas acerca da política dos Países Baixos (nomeadamente que a droga lá é legal...).
Um link útil (alguns conteúdos em Inglês) é o do Trimbos Instituut, que será mais ou menos o correspondente Holandês do Instituto da Droga e Toxicodependência Português.

Publicada porVictor Silva à(s) 19:59 0 comentários  

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