O Segredo de “O Segredo”…

…É que se embrulharmos bem um conjunto de coisas que não fazem sentido; metermos pelo meio de afirmações extraordinárias e não provadas a frase “como a ciência provou”; misturarmos deliberadamente mecanismos psicológicos bem conhecidos interpretando-os abusivamente; afirmarmos que só funciona se acreditarmos a 100% e – principalmente – arranjarmos o número suficiente de pessoas dispostas a engolir tudo acriticamente…podemos ficar ricos.


É o grande fenómeno dos últimos tempos. O “Segredo”. O livro, o filme, as mega-conferencias. “O Segredo”? Eu se soubesse um segredo assim, guardava-o para mim, a menos que o segredo fosse, bem…vender o segredo.
Na base do “Segredo” está a Lei da Atracção. Muito sinteticamente, para o caso de haver alguém que ainda não sabe o que é, esta “Lei” diz que atraímos tudo o que nos acontece. Bom e mau. Daí deriva que se pensarmos e desejarmos o suficiente qualquer coisa, ela será atraída para nós. Por exemplo, se eu desejar o suficiente um Ferrari, ele surgirá na minha vida. Ora, desde miúdo que desejo um Ferrari e nas poucas vezes que ele surgiu, ia a ser conduzido por outra pessoa. Se calhar não desejei o suficiente…
Fora de brincadeiras, este principio do pensamento positivo – desejar alguma coisa e convencer-se de que podemos tê-la – até tem algum fundamento. Do ponto de vista cognitivo, se conseguirmos controlar os pensamentos negativos que nos impedem de fazer coisas, mais depressa conseguimos fazê-las, perseverar, trabalhar o suficiente para atingi-las. A questão é que, por exemplo, para além do meu desejo de terminar a licenciatura, houve outras coisas que fiz: estudei, evitei faltar às aulas, fiz os trabalhos e os exames. Não me limitei a “desejar” que o canudo fosse atraído pelo meu pensamento.
Só desejar, por mais que o façamos, não é suficiente. Há que trabalhar para isso.
No meu trabalho deparo-me diariamente com pessoas cujo maior desejo, cujo mais forte pensamento, é nunca mais consumir drogas. Contudo, isso não basta. Há que identificar e alterar pensamentos que levam ao consumo, há que identificar situações de risco, há que criar e desenvolver estratégias de controle do impulso de consumo – mesmo quando o que mais desejamos é não consumir. Mas, mesmo com isto tudo feito, não é garantido o sucesso. E isto é muito mais que desejar não consumir. Há que trabalhar para isso.
A Lei da Atracção chega a ser cruel. Se atraímos tudo o que nos acontece, ao que parece andamos todos a desejar pagar mais pela gasolina. Talvez as pessoas dos países que produzem petróleo desejam que o preço suba. Mas, pelo que sei, há mais pessoas a desejar a diminuição do preço do que pessoas a desejar o aumento. A Lei da Atracção não faz sentido. Se assim fosse, muito português andava a desejar ficar desemprego, perder a casa, ter fome.
Outro exemplo: Se a Lei da Atracção funcionasse, neste Campeonato Europeu de Futebol, ganhariam os países com mais população, já que haveria mais pessoas a desejar a vitoria do seu país. Ora não é isso que acontece. Depende só de quem está em campo, poderia argumentar um estudioso do “Segredo”. Bem, se assim fosse, a maioria dos jogos acabaria empatado (até dou de barato que uma equipa possa desejar mais que outra). É que não basta desejar ganhar o jogo, é preciso jogar melhor, ter mais talento, melhor estratégia e uma pontinha de sorte. Desejar não é suficiente.
Há uns meses atrás, uma amiga minha justificava a sua mudança de residência para a Ribeira do Porto como estando relacionada com esta Lei da Atracção. Desejou e a coisa aconteceu…Pois entre o desejo e o acontecimento houve muita coisa que aconteceu e que ela fez: trabalhou mais, poupou dinheiro, arranjou comprador para a casa antiga, teve a sorte de encontrar a casa desejada na Ribeira. Não bastou desejar. Fez por isso.
O problema é que temos a tendência para valorizar as coisas que confirmam as nossas expectativas. Acredito no Segredo, vou atribuir a ele os meus sucessos. Se falhei é porque não acreditei o suficiente. Isto é uma fórmula vencedora…para os autores do Segredo. Se consigo o que quero é porque coloquei a mente e o meu esforço nesse objectivo. Se não consegui, mesmo querendo muito e esforçando-me muito é porque outras variáveis influíram. Não tenhamos a pretensão de controlar tudo o que nos acontece.
O Segredo é mais que isto, envolve até Física Quântica!!!!! Em bom português, é misturar alhos com bugalhos. Os argumentos apresentados parecem-me estapafúrdios e quem dedica a vida a estudar física diz que são mesmo. Como é que a física das partículas me faz ter um Ferrari por desejá-lo é uma coisa extraordinária…
Querem saber o verdadeiro segredo para ter um Ferrari? Trabalhar para isso. Ou ganhar o totoloto…


Um excelente texto a desconstruir “O Segredo” pode ser encontrado aqui

Para os que não percebem Inglês, o blog De Rerum Natura tem diversos posts sobre o tema. Basta fazer uma pesquisa.

Publicada porVictor Silva à(s) 20:29 16 comentários  

Cannabis, ganza marijuana...

Curiosa substância, esta…Consumida há milhares de anos, a droga ilegal mais utilizada nos dias que correm, acusada de ser a porta de entrada para a toxicodependência, portadora de simbologia religiosa, ainda imagem de rebeldia, a Cannabis atrai sobre si ódios e amores. Que eu saiba, é a única planta que origina marchas globais em seu favor.

Não vou enveredar por uma explicação aprofundada acerca dos efeitos e riscos da cannabis. Já toda a gente sabe – acho eu – que a cannabis parece ter propriedades positivas para saúde e também, quando consumida em excesso, graves consequências. Que acalma, relaxa, mas também consegue pôr um intelectual a rir dos “Malucos do riso”. Que pode, ao que parece, induzir desmotivação, o chamado “síndrome amotivacional” ( se bem que se possam apontar outros factores responsáveis por este efeito perverso). Que pode causar dependência psicológica, mas que a dependência física nunca foi provada. Que qualquer toxicodependente já consumiu cannabis, mas que o inverso não é verdade – há quem argumente, por exemplo, que todos os toxicodependentes beberam leite, mas que nem toda a gente que bebeu leite se tornou toxicodependente – um argumento a que sempre achei piada... Que é um facto que a sua potência tem vindo a aumentar nos últimos anos (embora, na minha opinião, e sublinho opinião, não se possam assumir relações de causa-efeito devido a este aumento).
De todas as drogas ilegais, a cannabis é aquela que maiores dúvidas origina. Reparem que escrevi sempre “pode” ou “parece” quando me referi aos seus efeitos. Ainda não há certezas absolutas em relação a muitos destes e outras variáveis parecem concorrer com a substância para os mesmos. Afinal, a cannabis parece ser uma das substâncias que mais dependem das variáveis de personalidade, contexto e biológicas para os seus efeitos. Não tem, por exemplo, o potencial de habituação da heroína, mas pode causá-la. Por outro lado, numa sociedade que sempre utilizou drogas, para os mais diversos fins, não deixaria de ser paradoxal para um visitante de outro planeta descobrir que a mesma sociedade que aceita o uso de álcool e tabaco, proíbe o de cannabis…Estamos na altura das queimas das fitas e digo-vos que se os estudantes universitários optassem pela ganza em detrimento do álcool, haveria certamente menos problemas, menos acidentes e menos danos físicos…
Sou a favor da Marcha da Cannabis, principalmente porque coloca na ordem do dia, talvez de forma secundária, a necessidade de investigação séria e bem feita metodologicamente acerca duma substância que gera tantas paixões. Nesta como noutras situações, o calor do debate do pró e do contra por vezes encobre as verdades científicas. Mas, de qualquer das formas, só no contexto de um debate esclarecido é possível desmascarar tantos e tantos moralistas que deturpam o conhecimento actual. Ou os libertários pouco informados (pelo que me apercebi, parece haver menos destes).
A minha posição em relação ao estatuto legal da cannabis é simples e baseia-se em experiências já testadas no estrangeiro: Agradar-me-ia ver um sistema semelhante ao da Holanda (ou, em segundo lugar, da Espanha) em Portugal. Isto por razões pragmáticas e que já desenvolvi noutro sítio, após ter lá ido ver como as coisas são feitas: comparativamente, a Holanda teve um aumento de consumidores de cannabis menor do que os países que seguem uma linha mais proibicionista. Isto quererá dizer alguma coisa…
Paralelamente, as razões de liberdade individual e auto-determinação são apelativas para mim. Os adultos deverão ser livres de escolherem consumir uma substância se assim o quererem e se isso não trouxer problemas para a sociedade. No estado actual de coisas, consomem e trazem problemas: É necessário haver um traficante para haver um consumidor. O dinheiro obtido de esta transacção é utilizado de formas muito mais negativas que os efeitos nefastos da cannabis. Controlando a sua venda – pelo estado, porque não – não só se retiraria uma fatia importante dos lucros dos negócios das drogas como se poderia utilizar as verbas obtidas na própria luta contra a droga, na investigação científica, enfim, em coisas úteis.
Porque não experimentar? Já se percebeu que a outra opção não funcionou…

Publicada porVictor Silva à(s) 22:08 49 comentários  

Sobre os “Problemas Espirituais”

Sempre andaram por aí, estes “problemas espirituais”. Não, não me refiro ao problema filosófico da existência de Deus ou à dúvida dolorosa do crente que encontra contradições na sua fé. Refiro-me aos “Problemas espirituais” que videntes, pessoas que falam com Jesus, bruxos, magos africanos e afins propagandeiam por aí.

Tem ou teve alguma vez algum destes sintomas? – Ansiedade, ataques de pânico;cansaço, falta de energia; crises não diagnosticadas; Depressões; doenças físicas, psíquicas ou psicossomáticas; dores generalizadas; dores nas costas; falta de sono; fobias; hipoactividade; mal estar generalizado; medos; mudanças constantes de humor; ouvir vozes; pressão no peito; problemas recorrentes (quando as mesmas coisas estão sempre a acontecer); quando há uma hipersensibilidade a um ou mais assuntos; quando há uma perda; stress; tristeza. Se sim, segundo Alexandra Solnado (1), pode padecer de “problemas espirituais” e estes são alguns dos seus sinais. Paralelamente, a mesma autora refere cancro; epilepsia; hiperactividade e ideias de suicídio como “patologias kármicas”.
Pelo que se vê, poucas serão as pessoas que nunca tiveram problemas espirituais. Aliás, neste momento, talvez tenha um, já que estou com uma dorzita nas costas e fiquei um bocadito mal-humorado quando li a lista de sintomas, quando ainda nem há 10 minutos estive a rir com uma anedota que alguém me enviou por e-mail…Quanto às patologias karmicas, atribuir a uma vida passada o cancro no pulmão que tenho hipótese de ter se não deixar de fumar, parece-me um pouco exagerado…talvez seja melhor deixar de fumar.
Na Psiquiatria e na Psicologia, utiliza-se o DSM-IV, que é um manual de diagnostico de perturbações psicológicas/psiquiátricas. Para cada perturbação existe uma lista de sintomas e é preciso ter x sintomas para se ter um diagnostico. Nos “problemas espirituais” parece que não é necessário este tipo de crivo, nem a investigação aturada, nem as reformulações regulares de acordo com a evolução do conhecimento que temos sobre estes problemas. Não. Nos “problemas espirituais” a falta de energia pode ser um sintoma de qualquer coisa transcendente.
Esquecendo os sintomas da Alexandra Solnado que são muito vagos (dores nas costas, crises não diagnosticas, medos, etc) que toda a gente já teve pelo menos uma vez por alguma razão, reparo que alguns dos outros poderão referir-se a problemas psicológicos, alguns muito comuns (como a ansiedade) outros nem por isso (do ponto de vista da prevalência na população) como o ouvir vozes. Outros ainda, devem-se e são facilmente explicáveis por situações da vida: perda, tristeza, cansaço, por exemplo e não são necessariamente patológicas... é que a perda, a tristeza fazem parte da nossa vida, tudo depende como lidamos com elas. Quanto ao cansaço…enfim, nem é preciso dizer nada, pelo menos se quem me lê trabalha.
Preocupa-me esta narrativa de atribuir tudo e mais alguma coisa a “problemas espirituais”. Alguns destes sintomas (ouvir vozes; ataques de pânico) são indicadores de perturbações mais ou menos graves e para as quais há tratamento com resultados aceitáveis, medicação específica, técnicos treinados para ajudar as pessoas que deles padecem.
Custa-me imaginar uma pessoa que tem ansiedade e ataques de pânico considerar que tem problemas espirituais e fazer os tratamentos indicados (já lá vamos), no lugar de procurar um médico que o medique e um psicólogo que o ajude a lidar e a extinguir os ataques de pânico. Existem protocolos de tratamento cognitivo-comportamental, validados e com excelentes resultados para estes problemas. Existe medicação para estas situações. Se houver algum estudo, um que seja, que verifique os resultados das terapias espirituais, alguém que me envie por e-mail. Testemunhos pessoais não valem. Tem de ser um estudo ao mesmo nível dos cognitivistas.
No mesmo sitio de Internet, propõem-se os tratamentos para resolver os “problemas espirituais”(2) : Terapia da Liberdade ou Terapia Espiritual Integrada; Limpeza Espiritual de Sobreposição de Encarnações; Limpeza Espiritual para Crianças Índigo (3); Terapia de Regressão a Vidas Passadas; Contacto com o Eu Superior; Consulta de Astrologia Karmica; Consulta de Incorporação. Pela lista de tratamentos, parece que também nos “problemas espirituais” não há um paradigma consolidado, tal o seu número e, mais que isso, não se sabe qual a terapia indicada para determinado problema. Pelo menos no site não vi nenhuma referência a indicações “terapêuticas”.
A Terapia da Liberdade é explicada da seguinte forma: “Quando encarnamos, o nosso ser uno que habita lá em cima divide-se em dois. A alma, a nossa parte divina, o nosso “Eu superior” fica lá em cima. O espírito, o nosso “Eu inferior” entra dentro no nosso corpo cá em baixo. É uma separação dolorosa. A missão do ser humano na terra é precisamente religar, o objectivo é unir o Eu Superior e o Eu inferior. Tornarmo-nos novamente unos. A Terapia da Liberdade promove esse reencontro. É uma viagem ao céu em que o Eu Superior funciona como um terapeuta pois detém todo o conhecimento das nossas muitas vidas (passadas e futuras). É esse ser quem irá dirigir a terapia. Ele é que sabe onde se aloja a raiz de cada problema. É ele o responsável por guiar a consciência até ao inicio dos nós kármicos, bem como à essência de cada um. Ali, a chave original do problema é desactivada, limpa, não tem retorno, o nó é ultrapassado(…)”. Como é que se faz isto? “analisando de que forma as situações foram acontecendo na sua vida; determinando as energias que trouxe como herança quando nasceu; intuindo a sua missão nessa jornada; compreendendo a sua infância e eventuais traumas; pondo consciência na sua qualidade energética e sabendo de que forma atraiu todas as pessoas que estão na sua vida; encontrando um sentido para as perdas tanto a nível material como de saúde”.
Ora bem…ao que parece esta terapia é baseada numa análise da história de vida, trabalho dos traumas infantis e numa “energia” que trazemos da outra vida. Qual energia, bem, isso já seria outro artigo…
Os dois primeiros pontos são coisas que um psicólogo (sério) tipicamente faz, em algumas perturbações. Afinal, é preciso conhecer e analisar a forma como a pessoa se foi estruturando ao longo da vida, que relações de vinculação influenciam o comportamento actual, que situações traumáticas podem estar envolvidas, para ajudar a pessoa a lidar melhor com elas ou alterar o comportamento e pensamento. Energias, pelo menos no meu gabinete, só entram as que a física já descreveu, nomeadamente a eléctrica que me permite fazer consultas de noite e ver o cliente. Contudo, há uma grande, grande questão: analisar uma história de vida não é coisa que se faça de ânimo leve e muito menos explorar situações traumáticas. Uma situação de abuso na infância tem de ser abordada com muito cuidado e sabendo como o fazer, pois pode despoletar crises psicológicas graves, despersonalização, piorar o estado da pessoa. Em alguns casos, nem está indicada, dado o potencial de desestruturação. Há que saber lidar com situações de dissociação no gabinete, que podem acontecer quando o tema é demasiado doloroso para a pessoa. Há que prepará-la para o embate. Desconfio que se aprendam estas coisas nos cursos da Alexandra…Ou talvez, uma dissociação seja entendida no paradigama “karmico” como um regresso a uma vida passada. Vamos lá a ver se a pessoa não fica na vida passada…
Isto tudo para dizer que isto de andar a fazer “terapia” tem muito que se lhe diga. São anos de estudo e prática. De supervisão. Preocupa-me que se fale com Jesus e se desate a abordar traumas infantis de outras pessoas. O potencial de criação de falsas memórias é enorme, para mais com “terapeutas” sem conhecimento dos mecanismos psicológicos do ser humano. Isto para não falar noutro tipo de perturbações, como o histrionismo ou mesmo esquizofrenia paranoide, em que estas coisas podem reforçar a perturbação, impedindo a pessoa de levar uma vida mais viável.
Para quando uma ASAE destas terapias…E, já agora, para os psicólogos também. É que também há muita “inverdade” a ser feita por colegas psicólogos…







(1) http://www.alexandrasolnado.com/terapias/EJCQVF_Sintomas.html
(2) http://www.alexandrasolnado.com/EJCQVF_as_terapias.html
(3) A propósito das “Crianças Índigo” uma análise céptica do “fenómeno” aqui

Publicada porVictor Silva à(s) 15:27 10 comentários  

Rui Rio e o arrumador

O Presidente da Câmara do Porto está a ser processado por um arrumador, na sua qualidade de director da revista da Câmara. Ao que parece o dito arrumador foi fotografado sem autorização e aparece numa peça da revista em que se fala de toxicodependentes.


Num tempo em que o (a)parecer é mais importante que o ser, não deixa de ser curioso este caso. Um arrumador, que diz que não é toxicodependente, pôs Rui Rio em Tribunal, porque a revista da Câmara terá usado abusivamente a sua imagem, ainda por cima sem autorização.
Embora esteja curioso para ver o que decidirá o Tribunal sobre este caso, considero-o desde já um bom exemplo de cidadania. Provavelmente, o arrumador não estará tão preocupado com a sua imagem como estará com a possibilidade de receber uns euros de indemnização. Afinal, arrumar carros não é das actividades mais bem-vistas pela sociedade e este cidadão realiza-a à vista de todos numa artéria da cidade do Porto por onde passam muitas pessoas, ainda por cima em local público (se fosse num estacionamento privado, a coisa seria provavelmente diferente). Infelizmente, a própria actividade está associada a toxicodependentes, pelo que este psicólogo assume preconceituosamente que os arrumadores, à priori, são também consumidores de drogas. Para já, é uma boa lição para quem, como eu, faz estas interpretações abusivas: afinal nem todos os arrumadores são toxicodependentes.
O arrumador também afirma que já foi apoiado pelo célebre Programa Porto Feliz. Só isto permite mais duas questões: ao que parece, neste caso, o programa não funcionou, no sentido em que a pessoa em questão continua a arrumar carros. Por outro lado, e aqui talvez a minha ignorância influa bastante, sempre pensei que o programa fosse para toxicodependentes. Então o que fazia esta pessoa naquele programa? Qualquer coisa não bate certo…Talvez a sua admissão tivesse a ver com uma situação de necessidade social. Mas não deixa de ser paradoxal, por parte do sujeito, beneficiar de um programa desenhado para toxicodependentes e depois queixar-se de que foi chamado toxicodependente. Parece que a conotação é positiva ou negativa dependendo dos benefícios que se tira dela…
Outra questão se levanta e tem a ver com a própria actividade de arrumador. Já não me lembro se a coisa foi avante, mas acho que houve uma tentativa de legalizar esta actividade, com cartão e tudo (honestamente não sei se no Porto se noutra cidade). Como estará isso? É legal, ilegal ou legal por omissão? Na minha opinião, sempre é melhorar arrumar carros do que realizar outras actividades mais prejudiciais…desde que não me obriguem a dar moeda se não me apetecer.
Contudo, honra seja feita ao arrumador: foi conotado num texto como toxicodependente, não o é e queixou-se. Tiraram-lhe uma fotografia e publicaram-na sem autorização. Queixou-se nos tribunais. Afinal, tem direito à sua imagem. Seja qual seja a sua real motivação, actuou de uma forma correcta, queixando-se no sitio correcto e chamou a atenção a muitos outros cidadãos (como eu) para preconceitos que nem nos apercebemos ter. Também esteve bem Rui Rio. Respondeu, assume as suas responsabilidades enquanto director da revista e não utilizou esta situação caricata e, julgo eu, inédita, para fazer política (pelo menos que me tenha apercebido).
Este caso lembra-nos a todos que o mais humilde dos cidadãos tem direito à sua imagem. Lembra-nos a todos que temos direitos e que os devemos defender. Não esquecendo, claro está, os deveres…

Publicada porVictor Silva à(s) 16:52 0 comentários  

Jogos Olimpicos: a Vergonha

Diz o senso comum que os chineses são culturalmente muito ciosos da vergonha. Que perder a face é coisa que não pode acontecer. Pois esta aventura dos Jogos Olímpicos não só atraiu a vergonha sobre um país (ou melhor, sobre os seus dirigentes) como sobre muitos países por via dos seus comités olímpicos.

Na antiga Grécia os Jogos Olímpicos realizavam-se em honra de uma divindade. Competiam os melhores atletas das várias cidades. Vigorava até um cessar-fogo durante os Jogos. Era um momento de encontro entre várias cidades estado.
Hoje, os jogos ainda vão tendo, apesar de tudo, esse factor de encontro entre nações. Contudo, já não há cessar-fogo entre nações beligerantes durante a competição. Os deste ano, mais que Jogos Olímpicos, estão a ser um Olímpico desastre de relações públicas para a China.
Percebe-se a organização dos Jogos pela China e a razão pela qual os seus dirigentes quiseram realizá-los. O gigante oriental também precisa de mostrar a sua face moderna, aberta, tolerante…tolerante, escrevi eu? Mas onde é que tinha a cabeça?!
A possibilidade de um estado ditatorial, onde as liberdades mínimas das pessoas não são garantidas, que subjuga pelo poderio militar nações adjacentes há décadas, realizar a festa do convívio da tolerância é uma coisa que só consigo perceber à luz da famosa “Real Politik”. Pois então, deixe-se a real politik no seu sitio e não se misture motivações que todos conhecem com um suposto gosto pelo desporto e pela competição saudável. A China nunca deveria ter sido nomeada organizadora dos Jogos. É a mesma coisa que um skinhead receber em sua casa, todo sorrisos e abraços um grupo de auto-ajuda de homossexuais negros emigrantes. É, na minha opinião, um contra-senso.
Pois, é chato para ao atletas treinarem anos e anos para uns Jogos e depois, por umj boicote politico, não poderem competir, como já ouvi alguém dizer por aí. Pois eu acho muito mais chato imaginar o tibetano que acabou de apanhar pancada ver os seus opressores a receberem aplausos do mundo porque organizaram umas competições desportivas e todos se deram bem.
Nem de propósito, os Jogos Olímpicos eram, orioginalmente, uma celebração respeituosa aos mortos. Ao que parece, este ano, pode ser que seja outra vez a mesma coisa…Nem de propósito, a chama olímpica, até já se apagou, por “problemas técnicos”. Que curioso…será que foram à Grécia acendê-la outra vez, ou há uma tocha suplente? Senão não faz grande sentido esta coisa da tocha ser acesa num sitio e andar a passear pelo mundo…
Não sou a favor que se façam boicotes. Não sou a favor que se retire a organização dos Jogos à China (só se fosse possível organizá-los noutro sítio, em tempo útil). Sou a favor que os atletas demonstrem, para todo o mundo ver e a China também, que são seres humanos e estão contra a opressão dos tibetanos. Que o mostrem, nem que seja de forma simbólica, na casa dos opressores. Os estados participantes e os seus dirigentes se calhar não podem ostilizar o PC Chinês por razões de “real politik”. Mas os desportistas, os que treinaram anos para competir, podem mostrar a sua solidariedade a quem não tem possibilidade de competir, ser livre ou viver em Paz. Que sejam eles a mostrar a real razão dos Jogos Olímpicos, a manter a chama olímpica, dizendo: Free Tibet.

Publicada porVictor Silva à(s) 20:03 0 comentários  

A farsa dos produtos “Naturais”

É o poder das palavras. Quem já não ouviu da boca de alguém “é um produto natural, não faz mal”. A questão é que os produtos “naturais” podem não ser inóquos. Podem nem ter benefício algum para a saúde, para a pele, seja para o que for. Podem ter benefícios somente para quem os comercializa.

Nem todos os produtos nascem iguais. Isto para dizer que existem produtos, alguns vendidos como medicamentos (embora não se denominando como tal) cuja eficácia no tratamento dos problemas ou benefícios que são afirmados na publicidade não estão provados. Uns serão inócuos, não fazendo nem bem nem mal, outros poderão não ser assim tão inócuos como isso.
Um médico especialista em heptotoxicidade alertou para o facto de os suplementos alimentares poderem provocar danos no fígado. Ao que parece existem fortes suspeitas da relação entre a utilização de um produto chamado Depuralina e o aparecimento de episódios tóxicos graves, como choques anafilacticos.
É o poder de uma palavra. É natural não faz mal. Pois também o tabaco é uma planta natural. Muitas drogas também. O problema é quando se põem à venda produtos que, a coberto de uma legislação mais permissiva já que não são medicamentos, não foram estudados suficientemente.
Qualquer medicamento digno desse nome passa por anos de investigação. Daí também o grande investimento financeiro que é feito no desenvolvimento de um novo medicamento e o tempo que leva desde as fases inicias de investigação até à sua comercialização. São feitos estudos para ver se o medicamento faz o que se deseja. Para ver quais os eventuais efeitos secundários. Para determinar a dosagem adequada, que faça efeito mas que de caminho não dê cabo do paciente. Fazem-se estudos com grupos de controle, de preferência duplamente cegos. Trocado por miúdos, estes estudos são feitos com dois grupos de pessoas, com as mesmas características. A um grupo é-lhes dado o medicamento. A outro é-lhes dado um placebo, ou seja, uma pastilha que não tem nada lá dentro (bem, isto não é bem assim, tipicamente dão-se comprimidos de farinha ou de qualquer outra coisa inóqua). Os dois grupos não sabem se estão a tomar o medicamento ou não. Para além disso, e para a experiência ser ainda mais rígida e evitar falseamentos propositados ou não, os técnicos que dão os medicamentos e tratam os dados da investigação também não sabem quem é que está realmente a tomar o medicamento.
Desta forma, controla-se o efeito placebo, ou seja, um efeito psicológico bem conhecido e que consiste, muito resumidamente, em acreditar que o que se está a tomar vai fazer bem e a pessoa sente-se realmente melhor. Não pelo que tomou, mas pela crença no que tomou. Este efeito é tão poderoso, que, por exemplo, se uma pessoa acreditar que está a tomar cocaína quando o que está a tomar é pó talco, vai sentir os efeitos da droga.
Se o grupo que tomou o medicamente verdadeiro melhorar mais e de forma estatisticamente significativa, sem se dever ao acaso, do que o grupo de controle (o que tomou o placebo) chegamos à conclusão que aquele medicamento funciona. Se não acontecer isso, conclui-se que o medicamente afinal não faz o que se pensava.
No caso dos produtos “naturais” e exceptuando casos em que os princípios activos destes realmente têm efeito (por exemplo, cápsulas de produtos de energia que mais não são que doses concentradas de cafeína ou outros estimulantes) o efeito placebo pode explicar as melhorias sentidas.
Para além do efeito placebo, há que ter em conta que muitas doenças não têm um curso linear, ou seja, há alturas em que os sintomas desta diminuem. Outras passam, aí sim, naturalmente (iriam desaparecer mesmo sem medicação). Se a pessoa tiver tomado produtos “naturais” vai associar a melhoria ao produto xpto. Daí ouvir-se tantas vezes que estes produtos têm efeitos, porque “eu melhorei”.
Uma coisa completamente diferente é saber que a melhoria se deve ao principio activo da substância. Saber porque é que o principio activo funciona e que riscos pode ter. E isso só se sabe com investigação séria.
Estes produtos muitas vezes não são sujeitos ao crivo científico dos medicamentos, daí o se ir descobrindo, às vezes tarde demais, que afinal o produto “natural” contribuiu para mais problemas do que para soluções.
Nos medicamentos, apesar de toda a investigação, surgem efeitos indesejáveis. Basta falar na talidomida. A ciência não está isenta de erro. A diferença é que a ciência e a sua metodologia procura e tenta controlar possíveis efeitos nefastos. Por isso é que tantos medicamentos promissores são abandonados por se descobrir que têm riscos inaceitáveis.
Na minha opinião, os produtos “naturais” devem ser sujeitos a estudos adequados. E atenção ao discurso quase médico que acompanha muitos rótulos. Eu posso inventar um líquido, que tem minerais, cuja ingestão faz bem à pele e hidrata, devido aos seus átomos de hidrogénio e oxigénio em grande quantidade.... Basta-me juntar açúcar qb a água e vende-la com um nome pomposo. No mínimo dos mínimos, deparamo-nos, nas prateleiras dos supermercados, com publicidade enganosa. Quando se fazem afirmações há que prová-las. E o consumidor deve estar não só mais atento ao que compra como exigir provas do que lhe afirmam.

Publicada porVictor Silva à(s) 16:22 0 comentários  

Crianças Índigo

A criança tem “excesso de energia”? “Não aceita a autoridade”? “Tem dificuldade em concentrar-se”?”Tem mudanças repentinas de humor”?
Um psicólogo tradicional pensaria “possibilidade de ter uma perturbação de hiperactividade”. Mas não é disso que se trata…São crianças índigo e têm até auras azuladas (índigo)…Vieram para nos salvar e promover a nossa evolução…Não precisam de ser educadas, apenas amadas. Mais uma crença perigosa.


O termo “Criança Índigo” foi criado por Nancy Ann Tappe, uma psíquica (supostamente tem poderes paranormais) que classificou as pessoas segundo a sua aura, num livro de 1982. Segundo a Nancy, o fenómeno índigo é reconhecido como uma das mais excitantes mudanças na natureza humana que já foram registadas. As crianças índigo são fáceis de reconhecer pelos seus olhos grandes e claros. São extremamente inteligentes e precoces, com uma memória espantosa e um forte desejo de viver instintivamente. Estas “crianças do próximo milénio são almas sensíveis com uma consciência evoluída que vieram cá para ajudar a mudar as vibrações das nossas vidas e criar uma terra, um globo e uma espécie. Elas são a nossa ponte para o futuro”(1).
Os defensores da existência destas crianças dizem que muitas crianças diagnosticas com a desordem de défice de atenção são afinal índigo e que representam uma nova evolução na espécie humana e que, portanto, não precisam de medicação, mas sim de treino especial e atenção (nada contra esta última afirmação…as crianças com hiperactividade necessitam realmente de atenção especial).
As crianças índigo são reconhecidas pela sua aura e por outros traços. O “Índigo Clildren Website”(2) aponta:
1- Vêm ao mundo com um sentimento de realeza (e comportam-se como tal)
2- Têm um sentimento de “merecerem estar cá” e ficam surpreendidos quando os outros não partilham essa ideia
3- Têm dificuldade com a autoridade absoluta (autoridade sem explicação ou escolha)
4- Simplesmente não fazem certas coisas; por exemplo, esperar numa fila é difícil para elas
5- Parecem antisociais a menos que estejam com os seus iguais. Podem virar-se para dentro de si mesmas, sentindo que ninguém as compreende. A escola é muitas vezes difícil para elas do ponto de vista social
6- Não respondem à disciplina baseada na culpa (“espera até o teu pai chegar a casa e descobrir o que fizeste”)
7- Não são tímidas em fazer saber o que precisam

Muitos destes “traços” são perfeitamente normais e habituais numa criança, mesmo as não índigos:
1-Muitas crianças acham-se reis ou rainhas ou princesas e comportam-se como tal (geralmente porque os pais assim as fazem sentir-se e permitem;
2- As crianças, até por factores desenvolvimentais, julgam que o mundo gira à volta delas;
3- Qual a criança (ou adulto) que não tem dificuldades com autoridades absolutas sem explicação?;
4- Uma criança a esperar numa fila é sempre uma coisa complicada, acho eu;
5- Quando as crianças não estão com os amigos, não é de espantar que fiquem mais retraídas, o convívio na escola não é, pelo menos ao inicio, fácil para todos e outros factores podem originar este comportamento;
6- Quanto à culpa, dependendo da idade, convém até que exista, até porque é um sentimento normal e estruturante do que se deve ou não fazer. Uma criança que não responde à ameaça da chegada do pai provavelmente não reconhece a sua autoridade;
7- Qualquer criança geralmente sabe dizer o que quer…nem que seja fazendo birras.

Como se vê, as próprias características de uma criança índigo são suficientemente amplas para incluir qualquer criança. Mas ainda falta um critério importante; a aura.

Auras

As auras são supostamente emanações de objectos, como se fossem energia. Dizem os paranormais que as cores das auras indicam personalidade das pessoas ou problemas que a pessoa tenha. Naturalmente, nada disto foi alguma vez comprovado, antes pelo contrário. Existem pessoas que dizem ser capazes de ver auras. Isto explica-se de várias formas, desde problemas em termos de percepção, enxaquecas, problemas no sistema visual ou dano neurológico. Qualquer um, mesmo sem ter estes problemas ou capacidades paranormais, pode ver auras: Basta olhar para um objecto ou pessoa, contra uma superfície clara, numa sala escura. O fenómeno deve-se a fatiga na retina e a outros factores ligados à percepção. Não a coisas do outro mundo. Uma suposta forma de registar auras é a chamada fotografia Kirlian. A fotografia é feita aplicando um campo eléctrico a um objecto numa placa fotográfica. Contudo, também isto é facilmente explicável: o que é registado é fruto da electricidade, pressão, humidade e temperatura. “As coisas vivas são…húmidas. Quando a electricidade entra no objecto vivo, produz uma área de gás ionizado à volta do objecto fotografado, assumindo que há humidade no objecto. Esta humidade é transferida para superfície do filme fotográfico e causa uma alteração no padrão da carga eléctrica no filme. Se a fotografia for tirada no vácuo, onde não há gás ionizado, não parece nenhuma imagem Kirlian”(3) ou seja, se a aura fosse uma energia paranormal, manter-se-ia mesmo no vácuo…

O Problema com as Crianças Índigo

Como vimos, as supostas características de crianças índigo são também as de crianças não índigo. Por outro lado, a ênfase dos defensores deste fenómeno tem a ver com as características de dificuldade de estar quieto, desafio à autoridade, serem crianças muito inquisidores, não conseguirem estar a fazer a mesma tarefa muito tempo. Estas características podem indiciar uma perturbação de hiperactividade. Nunca é fácil para um pai saber que o seu filho tem problemas a este nível, daí ser mais fácil acreditar que este afinal é “especial” e que tem um “tarefa” a desempenhar no mundo. O problema é que ao assumir que tem um filho índigo pode estar a prejudicá-lo, negando-lhe apoio especializado e científico baseado numa crença sem qualquer tipo de validade. Ao não conseguir aceitar a realidade pode estar a prejudicar ainda mais o filho. Para além disso, ao que parece as supostas crianças índigo não devem ser disciplinadas…Ora isto também é perigoso. A educação faz-se de amor, mas também de regras e de respeito pela autoridade. Um filho que não tem culpa pelo que fez, que tanto se lhe faz se o pai vai ralhar com ele ou não, tem dificuldade em funcionar em sociedade, que, quer queiramos ou não, tem regras e hierarquias.
Pode parecer mais interessante pensar que uma pessoa que ouve Deus a falar com ele é um profeta e não uma pessoa com problemas psiquiátricos. Pode parecer mais reconfortante pensar que um filho é uma criança índigo e não uma criança com um problema de hiperactividade. A questão é que o podemos prejudicar ou ajudar, consoante acreditamos no que nos diz o defensor dos índigos ou o médico…


Referências:

(1) http://skepdic.com/indigo.html
(2) http://www.indigochild.com
(3) http://skepdic.com/auras.html

Publicada porVictor Silva à(s) 16:04 7 comentários  

O poder de um telemóvel

Se não houvessem telemóveis, a triste cena no Carolina Michaelis não teria acontecido. A aluna não teria ficado destroçada pela apreensão do seu, o vídeo não teria chegado ao You tube e daí à comunicação social. Malditos telemóveis…Ou o telemóvel é apenas um pormenor?


Neste caso específico, o telemóvel é mais que um pormenor, dada a sua capacidade actual de registar vídeo. Se o aluno não tivesse gravado aquela triste cena, eu hoje estaria a escrever sobre outra coisa qualquer. A questão é que, ao que parece, cenas daquelas acontecem todos os dias. Esta em particular só se tornou digna de registo porque havia alguma coisa para ver.
Uma foto vale mais que mil palavras. Um vídeo feito com telemóvel vale muitas mais palavras, escritas e ditas. Vale muitos minutos de prime-time televisivo.
A questão da indisciplina nas salas de aula é um problema multidimensional. Não passa só pelas características do docente (mais ou menos permissivo, mais ou menos experiente), pelas características dos alunos, pelas características da vida moderna (que até inventou telefones que cabem num bolso das calças), pelas características da própria escola (parecendo que não, as condições mais ou menos agradáveis de uma sala de aulas podem potenciar a distracção e comportamentos disruptivos), os estilos educativos dos pais dos alunos (ou pura e simplesmente a ausência destes) e, só para referir mais uma dimensão, a adequação dos programas e das disciplinas às necessidades e aos interesses dos alunos.
Não nos façamos paladinos da moral e do bom comportamento nas salas de aulas. Eu assumo ter, por exemplo, mascado pastilhas elásticas nas aulas, quando isso ainda era um crime de lesa pátria e sinal de falta de educação. Não sei se o fazia por desafio, sei que por falta de educação dos meus pais não era, talvez fosse porque gostava dos “gorilas” de boa memória. Isto para dizer que a indisciplina na sala de aula há-de sempre existir, apenas mudam alguns dos artefactos que servem de “culpado”, de coisa interdita (uma pastilha elástica ou um telemóvel). É que quando há uma proibição, a tendência natural é a revolta contra essa proibição. São proibidos os telemóveis? “Agora é que vou usá-lo na sala!” pensará o adolescente. Se os interditos forem objecto de discussão e negociação (o quanto baste, claro, que há uma hierarquia a obedecer e não estamos num plenário do PREC), algumas destas situações podem ser atenuadas.
Também têm mudado, pela negativa, o grau de intensidade da indisciplina e as consequências destas. Seria impensável para mim não obedecer a uma ordem de um professor. Se o fizesse, seria sujeito a “julgamento” pelos meus pais. Se eu fosse a aluna deste caso, nunca mais punha a vista em cima ao meu telemóvel…na melhor das hipóteses.
Para além disso, é preciso não esquecer os efeitos que estas situações têm nos professores. A profissão é de si difícil. Ter de ensinar a turmas com dezenas de alunos, em plena explosão das hormonas é difícil. Com telemóveis ainda mais. Com alunos de origens muito diferentes, pior ainda. A massificação do ensino foi uma coisa boa, à priori. Mas também trouxe problemas novos. Um professor sujeito a este tipo de pressão hora após hora, dia após dia, maltratado por baixo (os alunos) e por cima (quem neles manda) pode desenvolver o que chamamos “burn out” ou seja ficar “queimado” pelo trabalho. Pode desenvolver perturbações ansiosas e depressivas. Desmotivar-se. Faltar. Ser professor, hoje em dia, é uma profissão de risco psicológico. É necessário repensar a politica de disciplina nas escolas, conjugar o diálogo com a autoridade, apoiar os professores e os alunos com dificuldades de vária ordem. Isto não vai lá com fascismos na escola, mas também não vai lá com este “laissez faire” generalizado.

Publicada porVictor Silva à(s) 19:02 3 comentários  

Moisés se calhar andava a «surrealizar por aí»

Um professor de psicologia cognitiva de Israel afirmou (eu diria mais especulou) que Moisés estaria sob o efeito de substâncias alucinogéneas quando apresentou os 10 mandamentos ao descer do monte Sinai, quando viu a sarça ardente, etc. Não deixa de ser uma especulação engraçada...

Um lugar comum de qualquer cronista quando lhe falta assunto é escrever sobre a falta de assunto. Ora este cronista, consegue fugir a este «drama». Basta-lhe ir ver o que se passa na secção «Acredite se quiser» do PortugalDiário. Sempre é mais arejado, eventualmente engraçado e até pode ser ponto de partida para reflexões mais ou menos profundas. Foi lá que descobri que Moisés se calhar andava a «surrealizar por aí» e de caminho ajudou à criação de uma religião.
Moisés a «tripar» com alucinogéneos acaba por ser uma imagem, mesmo para um católico (renitente, é certo) como eu, muitíssimo engraçada. Bastou-me deixar a imaginação fluir e de repente estavam os 12 apóstolos a partilhar um charro. Afinal, a cannabis já era conhecida e utilizada naquela altura...
Não é minha intenção ofender quem quer que seja, mas é um facto que quando se fala de religião (pelo menos da dominante no ocidente) de forma, digamos, menos ortodoxa, é quase certo que cai o Carmo e a Trindade... Aliás, parece quase uma evidência científica que se pode brincar com qualquer coisa, menos com a Religião. Que o diga o Herman José a sua rábula da última ceia (que, já agora, foi escrita pelo pessoal das Produções Fictícias).
A religião, as crenças religiosas, parecem ser assunto tabu. Parece que não se pode debater a realidade histórica de verdades de fé dum ponto de vista científico. Há quem diga que isso deve ficar no âmbito da fé, outros vão argumentando que mesmo as questões de fé podem e devem ser analisadas (como qualquer «artefacto» ou «produção» humana) dum ponto de vista científico. Que o diga, por exemplo, Richard Dawkins, o ateu mor da actualidade, por via do seu livro «A Desilusão de Deus».
Em países cristãos, esta possibilidade de uso de alucinogénios por parte de Moisés para ver sarças ardentes, falar com Deus, receber instruções deste, até mesmo separar as aguas de um rio, são um sacrilégio, uma ofensa «pessoal» a quem acredita na «verdade» escrita na Bíblia. Vai, afinal de contas, contra as crenças e a fé de quem se sente ofendido. Mas reflictamos: Buda também chegou a conclusões que a nós, filhos da tradição judaico-cristã, nos parecem estapafúrdias. Os Hindus têm até um deus que tem cabeça de elefante. Se até pode ser legitimo, pensando racionalmente, que alguém andava drogado para ver cabeças de elefante ou chegar à conclusão que vivemos várias vidas (e que se calhar ainda acabamos como uma barata por nos termos portado mal antes), porque não colocar a hipótese de que Moisés estava a «tripar» e deu-lhe para falar com Deus e ver sarças ardentes?
Isso nem pensar! Claro! É que o nosso deus, a nossa religião é a certa e os outros estão todos errados. Mas, certamente, se eu tivesse nascido numa família Hindu, acreditava em Shiva e nos seus vários braços. Isto para dizer que a religião é uma coisa aprendida.
Naturalmente acho que devemos respeitar as crenças religiosas. Mas também acho que isso não é incompatível com um escrutínio científico de certas afirmações, com colocação de hipóteses que até podem ter alguma razão de ser. Nomeadamente que Moisés talvez tomasse substâncias alucinogénicas. Isso pode ajudar-nos a entender melhor esse fenómeno humano universal que é a religião. Repare-se que ainda hoje, muitas pessoas ao tomarem drogas psicadélicas têm experiências de âmbito espiritual como falar com deus. Outras pessoas, mesmo sem drogas, falam com deus e ele responde. Geralmente são encaminhadas para o psiquiatra... Que seria feito das religiões se houvesse psiquiatras há uns milénios atrás?...
Um amigo meu diz que o ser humano é delirante, acredita em coisas tão extraordinárias como deuses elefantes; filhos gerados sem sexo; vinho que é sangue e pão que é carne. Mas estes «delírios» partilhados e transmitidos culturalmente têm várias funções que até podem ser positivas. Ou negativas. O facto é que existem. Tenha Moisés «metido» coisas parecidas com LSD ou não. Dá que pensar...

Publicada porVictor Silva à(s) 17:08 6 comentários  

Quando os pais se divorciam

O conceito de família tem-se alterado significativamente na nossa sociedade. Os casamentos já não são para a vida toda, as pessoas casam-se várias vezes e têm filhos de diversos casamentos. Como lidar então as situações de divórcio ou separação, de forma a proteger os filhos?

Há que ter em conta que a relação conjugal é diferente da relação parental. Estão interligadas, mas devem manter-se separadas. Muitas vezes os pais mantém-se casados e infelizes em função dos filhos. Isto não é saudável. Não é liquido que se protejam os filhos assim – por mais cuidado que exista é inevitável acontecerem discussões ou o relacionamento não ser o melhor, com pouca comunicação e frieza – e mantêm-se pelo menos duas pessoas infelizes.
Quando se pondera um divórcio ou separação, a menos que não haja outra solução, pode ser útil recorrer a um psicólogo, para que, com a ajuda de uma terceira pessoa que está de fora, se possa chegar a uma decisão. Por vezes há a possibilidade de melhorar o relacionamento e resolver as questões que o estão a prejudicar, por vezes a separação é o melhor caminho. Contudo, seja qual seja a decisão, esta deve ser pensada e negociada e até mesmo preparada e planeada, de forma a evitar efeitos nefastos não só nas pessoas que constituem o casal como também nos filhos e outros familiares - isto porque, naturalmente, uma situação de rotura pode afectar os pais ou sogros do casal.
Tendo-se chegado a uma decisão de separação – e até mesmo antes desta – há que comunicar adequadamente com as crianças ou adolescentes. As crianças apercebem-se de que alguma coisa não está bem e convém que lhes seja explicado que o problema não é deles, mas sim dos pais. Que os casais às vezes discutem, como eles às vezes discutem com os amigos. Que eles não são responsáveis pelo que se está a passar, o que é muito comum acontecer na cabeça das crianças. A comunicação é tanto mais importante em filhos com idades mais avançadas, já que a separação dos pais será certamente sentida como negativa e poderá ser geradora de dor.
Tipicamente, há a tendência por vezes de triangular os filhos, ou seja, desabafar com eles, tentando colocá-los de um ou outro lado. Falar mal da mãe ou do pai ao filho é negativo e deve ser evitado. Ao se fazer isso, coloca-se o filho numa situação muito difícil. Afinal gosta dos dois e está a ser-lhe pedido que tome partido. Da mesma forma, pode ser destrutivo perguntar a uma criança de quem é que gosta mais, se do pai se da mãe. Imaginem se um dos vossos filhos lhes perguntasse de qual dos irmãos é que gostam mais…
Não tenhamos ilusões: uma situação de rotura será sempre difícil para toda a gente. Se se tornará problemática, isso dependerá de como as coisas forem conduzidas. A primeira regra, como já referido, é a separação dos papéis. Uma coisa é ser pai, outra é ser marido. Assim sendo, as questões relacionadas com um ou outro papel devem ser abordadas e tratadas nesse âmbito. Dizer que o pai foi infiel quando se está a discutir para que colégio vai o filho não faz sentido.
Da mesma forma, há que evitar interferências exteriores ao casal. Nestas situações muitas vezes os sogros ou pais tentam intervir ou tomar partidos. Novamente, o problema é do casal e deverá ser resolvido por ele, eventualmente com ajuda especializada.
Acima de tudo, há que ter consciência de que apesar da relação conjugal ter terminado, ainda há a relação parental. Nesse sentido, os pais deverão manter uma comunicação e relação adequada no que diz respeito aos filhos. Isto envolve naturalmente muita negociação, daí a importância de se conversar e planear adequadamente todas as questões práticas: Tempo com os filhos, custódia, alturas de festas como Natal, aniversários, etc. Se houver um plano previamente definido e negociado em relação as estes aspectos, poder-se-á diminuir eventuais tensões. Mas isto não quer dizer que não haja espaço para a flexibilidade. Tudo dependerá do novo tipo de relação que é construída entre o ex-casal.
Resumindo, estas pequenas dicas resumem-se a duas coisas: comunicação adequada e relacionamento se não bom, pelo menos cordial.
No que diz respeito aos indivíduos durante ou depois da separação, é vulgar que as pessoas se sintam deprimidas ou ansiosas. Afinal, terminou-se uma relação que seria para toda a vida. Nestes casos pode ser útil o recurso a um psicólogo. Recomendo a leitura do artigo “Quando o amor acaba” disponível no meu site e que versa sobre essa situação.

Publicada porVictor Silva à(s) 19:43 0 comentários  

Apoio para Filhos de Pais Separados e/ou divorciados


Localização:
Porto e Vila Real



Introdução:

Hoje em dia, o divórcio e a separação tornou-se cada vez mais frequente. Quando existem filhos do casal em separação, muitos desafios se colocam, principalmente no que diz respeito ao seu bem-estar. Uma situação de separação dos pais pode originar mal-estar psicologico, problemas de aprendizagem, alterações de comportamento, pondo em causa o desenvolvimento adequado das crianças. Neste sentido, oferecemos uma intervenção dirigida a filhos de pais separados e/ou divorciados cujo objectivo principal é a prevenção destes problemas. Mesmo que as crianças não apresentem problemas de ordem emocional ou de aprendizagem esta intervenção pode prevenir dificuldades futuras.

Objectivos:

Promoção da saúde com o objectivo de enfrentar de uma forma funcional as situações que induzem stress ou dificuldades de ajustamento, nomeadamente desenvolvendo a comunicação, as capacidades de resolução de problemas, enquadrar as experiências afectivas e melhorar as possibilidades de apoio.


Organização:

Programa Individual : Todas as sessões são realizadas individualmente
Programa Grupal: Número mínimo de 5 crianças para inicio da intervenção. Máximo de 8 elementos por grupo. As sessões iniciais de avaliação são realizadas individualmente.
Duração das sessões: 60 a 90 minutos, semanalmente

Sessões 1, 2, 3: Entrevista e avaliação psicológica. Informação aos pais acerca dos resultados.
Sessão 4: Divórcio e mudanças
Sessão 5: Divórcio e transformações familiares
Sessão 6: Sentimentos relacionados com o divórcio - Tristeza
Sessão 7: Sentimentos relacionados com o divórcio - Medo
Sessão 8: Sentimentos relacionados com o divórcio - Raiva
Sessão 9: Sentimentos e comportamentos perante o silêncio dos pais
Sessão 10: Situações do dia a dia: Vivendo com pais separados
Sessão 11: Vivendo num mundo em mudança
Sessão 12: Fontes de apoio
Sessão 13: Conclusão do processo

Resultados Esperados:

A investigação tem demonstrado que esta intervenção oferece " um contexto flexível e favorável que ajuda a criança ou o adolescente “normalizar” a situação, romper segredos, diferenciar aspectos sobre os quais tem ou não controle. Pode, assim, reforçar o lócus de controle interno, favorecendo a compreensão de processos e motivações envolvidas e elaborar os sentimentos subjacentes – principalmente tristeza, medo, raiva e culpa – atuando sobre as perdas e mobilizando novas fontes de apoio.
Uma avaliação quantitativa por meio de escalas padronizadas - Inventário de Ansiedade Traço-Estado (Biaggio, 1983); Escala de Stress Infantil (Lipp e Lucarelli, 1998); Transtornos de Déficit de Atenção (Benczik, 2000) - têm sido realizada nos grupos em escola. Imediatamente e após 6 meses de intervenção, identificou-se redução de depressão e ansiedade, melhora no desempenho escolar e nos relacionamentos em geral (Fillipini, 2003).
Nossa prática levou-nos a conclusão de que os grupos de apoio constituem trabalho preventivo privilegiado, pois possibilitam o conhecimento da situação, facilitam a elaboração dos sentimentos contraditórios vivenciados, fomentam o diálogo (inclusive o familiar) e a elaboração da crise, prevenindo maiores comprometimentos
"
In Souza, R.M., (2005) . GRUPOS DE APOIO PARA FILHOS DE PAIS SEPARADOS E DIVORCIADOS. Trabalho apresentado no II Congresso Hispano-Portugues de Psicologia

Honorários:
Programa Individual: 40 euros por sessão (13x40 = 520 euros)
Programa Grupal: 40 euros por sessão de avaliação (3x40=120) + 25 euros por sessão grupal (10x25= 250) Total: 370 euros

Os honorários podem ser pagos mensalmente, no inicio de cada mês.

Responsáveis:
Dra. Sónia Rodrigues
Licenciada em Psicologia pela Universidade de Coimbra
Mestre em Psicologia da Saúde pela Universidade do Porto
Detentora do Grau de Especialista em Psicologia Clínica pelo Ministério da Saúde

Dr. Victor Silva
Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto
Mestre em Psicologia do Comportamento Desviante pela Universidade do Porto


Contactos para inscrição e informações complementares:

victor.silva@tvtel.pt ou 966167563
965058714 (Vila Real)

Publicada porVictor Silva à(s) 15:11 1 comentários  

Futebol e Psicologia

A importância do Balneário. A chicotada psicológica. O grupo coeso. É preciso proteger a equipa. As estrelas da companhia. A pressão é importante. A pressão é demais. Não há pressão. É preciso pressão. O árbitro falhou. O árbitro acertou. O jogador não está bem. Paulo Bento tem condições. Paulo Bento não tem condições. Frases típicas quando discutimos ou vemos futebol. Mas será que estamos a ver mesmo o que achamos que estamos a ver quando assistimos a um jogo de futebol?

Há quem diga que se pode mudar de casa, de esposa, de carro, mas que não se muda de equipa de futebol. Até mesmo de religião se muda, mas se conseguisse com que um benfiquista se tornasse portista, eu ganharia certamente o Prémio Nobel da Psicologia, caso existisse.
A meu ver o futebol é uma demonstração do funcionamento grupal do ser humano. Antes haviam clãs, agora os clãs são as equipas de futebol. Antes havia guerras religiosas (bem, pelos vistos ainda hoje…) mas cada vez há mais guerras de adeptos de futebol. Todo o nosso funcionamento psicológico e social surge mais visivelmente quando se debate ou assiste a futebol (naqueles que gostam de futebol). Inclusivamente, se calhar é das actividades humanas onde erros de processamento cognitivo são mais facilmente identificáveis. Basta pensar a quantidade de vezes que chamamos “cego” ao árbitro. Será que ele não viu aquela “falta gravosa” ou será que nós é que vimos o que queríamos ver?
Imaginemos um cenário: Num Benfica-Porto, o Quaresma cai numa disputa de bola com o Rui Costa. Aposto o que quiserem que a maioria dos portistas vai gritar “falta!” e a maioria dos benfiquistas vai gritar “Fingiu! Amarelo!”. O acontecimento é o mesmo. Objectivo. Mas a questão é que provavelmente, mesmo depois das repetições em câmara lenta, a divergência na análise da situação vai manter-se. Num primeiro momento, chegamos a conclusões sem ter provas suficientes (afinal, a jogada foi tão rápida, que nem vimos bem) e as nossas crenças “o Quaresma atira-se sempre para o chão” ou “o Rui Costa não faz faltas” determina a nossa conclusão. Num segundo momento, depois da repetição, a divergência mantém-se. É que mesmo com provas (neste caso, e sendo eu portista, imaginemos que foi mesmo falta), o Benfiquista terá tendência para confirmar as suas expectativas. É que nós temos a tendência para ver nas situações aquilo que estamos à espera. No amor, uma pessoa insegura interpretará um sorriso de uma mulher como sendo de gozo. Uma pessoa segura interpretará como sendo um convite. E o sorriso é o mesmo. Nem sempre o que vemos é a realidade. Nós construímos a realidade de acordo com expectativas, aprendizagens, experiências passadas, crenças, desejos, medos.
Mas há mais no futebol: vamos aos melhores jogadores em campo ou aos piores em campo. Na Psicologia Cognitiva há uma coisa chamada “Abstracção Selectiva”. Trata-se de nos concentrarmos num pormenor, esquecendo o conjunto da situação. Por exemplo: O Lucho Gonzalez faz um péssimo jogo. Perde a bola, falha passes constantemente. Mas eis que , nos últimos 10 minutos, marca 2 golos de “bonito efeito” como dizem os comentadores. A probabilidade de nos concentrarmos nesses 10 minutos esquecendo os restantes 80 é grande. De pior jogador, pode passar facilmente a melhor jogador. A mesma coisa pode acontecer ao contrário: O Luisão faz um jogo irrepreensível, mas foi ele que perdeu a bola nas duas vezes em que o Lucho marcou. Facilmente passa de herói a besta.
Este tipo de coisas pode acontecer a árbitros. Um árbitro pode fazer sobregeneralizações: percebeu que um jogador atirou-se ao chão de propósito e então interpreta cada queda desse jogador como sendo teatro, mesmo que não o seja. A partir de um acontecimento, generaliza aos outros. O mesmo pode acontecer a jogadores, que falham um penalti e depois acham que irão falhar sempre os penaltis.
Como se vê, há muito de psicologia no futebol, dentro e fora de campo. Até mesmo nas perguntas dos jornalistas: Ao perguntarem insistentemente se o Paulo Bento tem condições para continuar, estão a dizer que acham que não tem. Se ele for despedido, confirmarão as suas expectativas. Se não for, racionalizarão de outra forma, explicando a permanência duma outra forma, não necessariamente relacionada com as condições iniciais…

Publicada porVictor Silva à(s) 19:18 0 comentários  

PsicoAstrólogos e afins

É uma tendência preocupante e, na minha opinião, perigosa para as pessoas que servimos. Cada vez se encontram mais psicólogos (serão mesmo?) que afirmam utilizar a Astrologia como ferramenta de diagnóstico. Outros abraçam acriticamente, como se de grande saltos paradigmáticos se tratasse, coisas como Crianças Índigo, auras, terapias de vidas passadas e outras irracionalidades.

A Psicologia é uma ciência social, jovem. Mas isso não quer dizer que não tenhamos intervenções e formas de trabalhar validadas cientificamente, comprovadas. Mais que do que isso, ao nível da psicoterapia, sabemos inclusivamente que vários factores influenciam o resultado da intervenção, nomeadamente o estilo pessoal do terapeuta e a qualidade da Aliança Terapêutica. E trabalhamos com isso. Afinal, enquanto psicólogo, gosto de me ver enquanto um profissional da relação. Mas um profissional que utiliza técnicas validadas, prepara previamente a intervenção, realiza uma avaliação do cliente que tem à frente – que é sempre sujeita a alteração no decorrer da intervenção – e adequa o que faz não só ao problema apresentado por quem me procura, mas também às próprias características da personalidade dessa pessoa. Tudo isto recorrendo ao conhecimento científico que a minha ciência tem produzido, tem provado ser eficaz e explica satisfatoriamente o funcionamento humano.
Assumo-me, enquanto profissional, numa perspectiva construtivista-desenvolvimental. Mas atenção que sou um construtivista crítico. Existe uma realidade externa a nós, embora a construamos e a vejamos de acordo com a nossa história de vida. Daí também a importância do desenvolvimentalismo, no sentido de perceber como aquela pessoa construiu a visão do mundo, de si próprio e dos outros ao longo da sua história de vida, naturalmente prestando muita atenção aos estilos de vinculação que o cliente apresenta e como estes foram desenvolvidos.
Faço este parêntesis mais teórico para chegar a outro ponto: Os exageros do pós-modernismo, onde por exemplo, incluo o construtivismo radical. Uma coisa é dizer que construímos a realidade, outra é dizer que não há realidade. Uma coisa é dizer que a Aliança Terapêutica é fundamental num processo de consulta psicólogica, outra é dizer que isso é suficiente. Basta pensarmos que para criar uma boa relação temos de perceber como funciona o cliente – o que nos remete para o estudo das dimensões da personalidade – para chegarmos à conclusão de que precisamos, e devemos utilizar, o conhecimento científico que foi desenvolvido nesta área. Consulta Psicólogica não é uma conversa de amigos (também há relação nesta) é uma conversa que tem objectivos e é feita de acordo com esses objectivos.
Do ponto de vista das técnicas que utilizo, sou eclético (ou integrador, se quiserem) subordinando-as à metateoria assumida, em que pretendo promover o desenvolvimento da pessoa que tenho à minha frente, num trabalho de reconstrução de significados não viáveis ou que não permitem a adaptação a novas circunstâncias de vida. O Ecletismo ainda é uma palavra perigosa. Com alguma razão, pois por vezes cai-se no “tudo vale”, em intervenções desconjuntadas sem uma linha de rumo. Mas assumo-me enquanto tal, porque acho que, a bem das pessoas que sirvo e das quais recebo pagamento pelos serviços, devo utilizar o que de melhor tenho à minha disposição. E se uma intervenção/técnica é comprovadamente útil e recomendada para determinado problema utilizo-a, sempre num contexto em que faça sentido para o cliente. É que também existem colegas que caem na passagem de técnicas, como há quem caia na passagem de testes. São instrumentos, não um fim em si mesmos.
Tudo isto para explicar porque é que a ciência é importante e como esta não é contra os interesses dos psicólogos, mas sim a favor deles – enquanto profissão que pode responder ao que lhe é pedido – mas também a favor dos clientes, que procuram ajuda para viver melhor. Não andamos a vender aspiradores porta a porta, onde tudo vale para convencer alguém a comprar. Lidamos com pessoas. E devemos, nem que seja por razões de consciência, utilizar coisas que funcionam, não coisas que podem até prejudicar a pessoa.
Vamos então à Astrologia. Não vou explanar aqui exaustivamente as razões porque NÃO é uma ciência (talvez fique para um próximo artigo). Basta dizer que nunca foi comprovada empiricamente, que o próprio modelo cosmológico de influência dos astros está ultrapassadíssima – há mais planetas, não contempla, por exemplo, outros objectos como meteoros ou cometas, etc. No contexto da descrição das supostas personalidades deste ou daquele signo, é também fácil perceber, desde que se esteja atento, que através de uma boa utilização discursiva, para cada característica existe também o seu oposto – por exemplo, que a pessoa de tal signo é “amiga dos outros, dada e gosta de se relacionar” mas também que é “senhora do seu nariz e muito cuidadosa nos amigos que escolhe”. Em que ficamos? É senhora do nariz ou é dada? Relaciona-se com todos ou só com quem passa o seu crivo de exigência? Façam o exercício com os vossos signos e vejam o que corresponde. E, de resto, temos a tendência para validar os acertos e esquecer os tiros ao lado. Bem como para, a partir de uma informação generalista, que encaixa em qualquer pessoa, vermos as nossas características.
Quais são então os riscos? Já vimos que a Astrologia não tem validade. Mas não será só uma brincadeira? Bem, se a virmos como brincadeira, tudo bem. Também é verdade que devemos respeitar as crenças das pessoas (se bem que por vezes tenha dificuldade com esta asserção – deverei respeitar a crença de que as pessoas de cor são menos inteligentes?). Uma coisa completamente diferente é utilizar a Astrologia enquanto instrumento de avaliação ou intervenção. Já repararam que, ao fazer uma análise de personalidade baseada na astrologia, estarão provavelmente a colocar o controlo dos actos, pensamentos, formas de ser e estar numa coisa fora do cliente? Em estrelas e planetas? Isto ajuda em alguma coisa a auto-determinação da pessoa? Dá-lhe poder sobre a sua vida? Fa-la-á esforçar-se e trabalhar para modificar as coisas ou entrar num discurso redondo de “tudo depende do mapa astral” ou dos ascendentes ou…
A resposta típica é que a Astrologia “dá tendências”. Muito bem, a psicologia também prevê tendências de funcionamento. Mas há uma diferença: A Astrologia não tem base científica! A Psicologia sim. Não conheço estudos sérios de astrólogos, conheço imensos de psicólogos. Porque existirão psicólogos (ou melhor, licenciados em psicologia) que usam estas coisas? Prefiro pensar que se tratam de crenças da pessoa, no lugar de pensar que é apenas uma estratégia comercial. Mas mesmo assim, isso, para mim, é impingir uma crença pessoal noutra pessoa. Isso não é, de todo, Psicologia. Se fossemos por esse caminho, eu, que hipoteticamente seria Hindu, também estaria legitimado a impingir a minha crença religiosa num cliente católico. Não é isso que fazemos, isso não é Psicologia.
Psicologia é auxiliar as pessoas que nos procuram, utilizando técnicas, modelos de intervenção validados. Estudados exaustivamente, com estudos em que há um grupo de controle, replicados. Com estudos de caso devidamente desenhados e avaliados. Não é recorrer a irracionalidade (lembram-se das crenças irracionais e pensamentos automáticos dos cognitivistas?) que nunca foram provadas seja de que forma seja e que, mais que isso, podem ter resultados catastróficos no bem estar de uma pessoa. Quando vão ao médico preferem que este vos dê um medicamento que foi estudado ou que ele aconselhe que bebam água que foi energizada pelos astros? É a mesma coisa.
Se por acaso quem me lê é uma pessoa à procura de ajuda psicológica, lembre-se de que tem o direito de perguntar como trabalha o psicólogo a quem vai recorrer, se o modelo que segue tem validade. Pode também indagar sobre a formação que o técnico tem e onde a adquiriu. Desconfie se lhe falarem de astrologia (se é isso que procura, mais vale ir ao astrólogo), crianças índigo, vidas passadas e coisas que tal.

P.S.- As outras irracionalidades ficam para outros artigos.

Publicada porVictor Silva à(s) 18:27 2 comentários  

Conhecer o caminho da violência à insegurança

Noticia do "O Primeiro de Janeiro" de 19 de Janeiro


Debate promovido pelo CDS/PP
Conhecer o caminho da violência à insegurança“

É muito fácil apercebermo-nos que um rio é violento. Mas, o que nós não nos lembramos é que, muitas vezes, as margens que comprimem esse rio é que fazem com que ele seja violento”. Foi com um empréstimo das palavras de Bertold Brecht que Maria Guimarães dos Santos deu inicio à sua intervenção, no debate «(Des)Caminhos na cidade – Fenómenos Sociais na Base da Insegurança Urbana».O evento, realizado no Café Majestic e organizado pela Concelhia do CDS/PP Porto, visava tentar analisar o sentimento de insegurança que ainda povoa o quotidiano portuense, no âmbito dos graves casos de violência que o mancharam nos últimos meses.A actual presidente da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens do Porto continuou o raciocínio, ombreado por 32 anos de trabalho de campo em meios difíceis (nove no Cerco e 23 nos bairros da Pasteleira e Pinheiro Torres): “Ao longo de todos estes anos, constatamos que a problemática do planeamento urbanístico ainda subsiste. Continuamos a incorrer no erro de concentrar os problemas nos mesmos espaços habitacionais”, afirmou.Para explicar o efeito, cita um excerto de um artigo do Jornal de Noticias (09-04-2001), que diz: “A violência nas cidades não vai acabar. Pelo contrário, a tendência é para aumentar, sobretudo, entre os jovens enquanto se juntar grande número de famílias com condições sociais idênticas em habitats segregados, em vez de as dispersar e misturar com outros grupos sociais”.Segundo Maria Guimarães dos Santos essa dispersão social é fundamental e ultrapassa em importância o mero melhoramento material dos conjuntos habitacionais: “A Pasteleira Nova é um bairro recente, tem casas novas, com boas condições. No entanto, detém o recorde da cidade em sinalizações de situações de risco à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. A concentração dos problemas é nociva. Faz-se sentir”.

Compreender a génese da violência

A segunda intervenção pertenceu a Victor Silva, psicólogo do IDT (Instituto Droga e Toxicodependência). Como se forma o fenómeno dos gangues? O que motiva a criação de vídeos com ode à violência? Foram questões que o psicólogo começou por fazer pairar sobre uma audiência que lotou todas as mesas do clássico café portuense.De seguida soltou as respostas, explicando que sem figuras de referência, de vinculação, sem apoio ou suporte familiar, os jovens vão privilegiar a partilha de valores dentro de grupos. Neste caso, grupos que usam a criminalidade como uma força de resistência, de marcar a diferença em relação a uma sociedade que, à priori, os rejeita. “No fundo todos nós temos uma cultura de grupo. Desde o guna de boné que quer sapatilhas de marca ao executivo que usa um Rolex, ambos são motivados por valores impostos na nossa sociedade capitalista, que é o desejo de aceder a bens materiais”. Colocando a hipótese da liberalização das drogas como meio de acabar com o financiamento criminal, cuja grande fatia advém do tráfico – uma medida criticada e rejeitada pela maioria da plateia embora, nitidamente, por razões mais emocionais e morais do que propriamente de índole racional – o psicólogo alertou para os perigos do que classifica como “terror interventivo”. Como exemplo aponta um caso verificado na Grã-Bretanha, em finais dos anos 80, quando despoletou o extasy. Na altura gerou-se o pânico geral, os tablóides preconizaram a desgraça da juventude. Como resposta, os políticos decidiram fazer uma caça sensacionalista às raves, às festas privadas. “Resultado: quem não sabia o que era o extasy, o que era uma rave, ficou a conhecer e resolveu experimentar”, atesta. Defende ser fundamental responder aos fenómenos com conhecimento de causa, de forma a não gerar consequências contraproducentes. Nesse sentido, estipula três passos que considera fundamentais: Antes de julgar, é preciso conhecer. É preciso conhecer antes de intervir. É preciso intervir “com” as pessoas e não “nas” pessoas. “Para não sermos nós as margens que se tornam cada vez mais contraídas e deixam o rio cada vez mais violento”.

Victor Melo



Alguns amigos e conhecidos ficaram espantados pela minha participação numa iniciativa deste partido...Devo dizer que não tenho qualquer ligação a este partido e tenho participado sempre que convidado, em iniciativas de outras forças políticas - antes do PP, numa conferência da JS, por exemplo. Para além disso, a participação é ao nível puramente individual, reflecte as minhas opiniões pessoais e não necessariamente a dos meus empregadores.

Publicada porVictor Silva à(s) 16:19 0 comentários  

Salas de Chuto

A criação de salas de injecção assistida / Salas de consumo vigiado, só por si, é uma boa medida. A sua integração em planos territoriais com a prevenção primária, o tratamento e outras intervenções na área das drogas, isso sim, é uma excelente medida.



Muito se tem falado, nos últimos dias, de salas de injecção assistida – ou salas de consumo vigiado, terminologia adoptada no Plano de Acção Horizonte 2008 do Instituto da Droga e Toxicodependência (disponível em www.drogas.pt) - vulgo “Salas de Chuto”. O tema é importante, e abordá-lo-ei mais especificamente. Contudo, parece-me que o mais importante tem ficado um pouco “soterrado” por esta coisa de agora criar sítios onde os toxicodependentes se possam injectar “à vontade” como diria uma cidadão comum: A ideia de planos territoriais de intervenção, onde todas as áreas (Prevenção, tratamento, redução e minimização de danos e riscos), após avaliação do que é preciso fazer, trabalham em conjunto, chamando e ouvindo a comunidade, para “atacar” o uso e abuso de drogas. Utilizando uma metáfora bélica – os tempos são propícios a isso – passamos de uma “guerra” em que a força aérea, o exército e a marinha cada um definia os seus objectivos estratégicos, quase independentemente e com pouca comunicação com as outras forças em acção, para uma guerra onde se pretende que as três forças definam em conjunto a intervenção a efectuar, após analisar o território, comunicando constantemente entre si. Pode parecer simples e lógico, mas é uma mudança positiva no que à “Luta contra a Droga” diz respeito e que é assumida no referido Plano de Acção Horizonte 2008. A integração de serviços de minimização de danos como as salas de injecção assistida nesta nova filosofia é, para mim, um passo de gigante nesta área, dada a população que pretende servir. Vamos lá então à “Vaca Fria”: As “salas de chuto”.

Salas de Injecção Assistida / Salas de Consumo Vigiado

Basta circular por qualquer grande cidade, para nos apercebermos que as “salas de chuto” já existem. Só não são salas, são a céu aberto, não têm o mínimo de condições sanitárias, são um perigo de saúde pública, são degradantes e contribuem para a degradação de seres humanos, que não deixam de o ser por serem toxicodependentes. Sim, estou a referir-me às zonas degradadas e empobrecidas onde o consumo é feito à vista de todos – isto para não falar em jardins e sítios semelhantes. O problema existe, e é preciso atacá-lo, de uma forma pragmática. Estamos aqui a falar de diminuir os danos que o consumo de drogas injectáveis provoca em pessoas que são – a OMS assim os define – doentes. E também de proteger a saúde pública.
Com a criação destas estruturas, estas pessoas, mais do que injectarem-se – a visão terrífica de uma seringa espetada num braço por vezes tolda-nos o raciocínio – terão acesso a serviços de saúde a que, de outro modo, provavelmente não recorreriam. É humano, é necessário. Por eles, que estão muitas vezes já muito degradados e portadores de diversas doenças graves; por nós, público em geral. Uma pessoa com tuberculose, toxicodependente de “rua”, certamente terá muita dificuldade em cumprir um tratamento nas condições actuais. Tendo um sítio onde consumir com mais segurança e com técnicos de saúde, talvez cumpra o tratamento, talvez crie uma boa relação com eles, talvez decida tratar a sua dependência, talvez não partilhe seringas, talvez não contagie outras pessoas com a sua tuberculose (por exemplo) tão facilmente.
Vejo as salas de chuto como uma porta de entrada para o sistema de tratamento da toxicodependência e outras doenças (HIV; tuberculose; hepatites, etc) para uma população muito carenciada que não recorre, não tem meios ou tem até dificuldade a aceder aos serviços de saúde. Daí a importância que dou aos planos integrados: passa pela sala de chuto, pode acabar num centro de tratamento. Vem da rua para perto de técnicos de saúde. Podem até vir do inferno – e é um inferno o que estas pessoas vivem – para uma vida “normal”.
É preciso não esquecer – e seria injusto fazê-lo – que existem já equipas de rua, que contactam com esta população e têm tido um trabalho muito importante e válido, por vezes em condições de trabalho muito difíceis e perigosas. As salas de chuto vêm complementar este trabalho, maximizando-o.
Muitos mais argumentos poderiam ser expostos, mas termino com duas ideias:
- Uma coisa é a minimização de danos, outra o tratamento. A primeira pode levar ao segundo. A primeira pode proteger quem consome drogas da forma como o faz actualmente e pode também proteger outros cidadãos.
- A próxima vez que olhar para uma berma de estrada e ver uma pessoa agachada a injectar-se, pense se prefere que ele faça aquilo ali, ou num sítio com um mínimo de dignidade. A próxima vez que ver um toxicodependente a tossir na rua, pense se prefere que ele continue no bairro sem apoio médico ou num sítio onde pode vir a ter esse apoio.
Pense nele e pense em si.

Publicada porVictor Silva à(s) 15:55 1 comentários  

Da escrita na Era da Internet

“A minha máquina de escrever é o meu psicanalista”, mais coisa menos coisa, disse Hemingway. Num tempo de blogs, a escrita auto-reflexiva deixa os diários com cadeados e revela-se ao mundo. Antes escrevia-se para a gaveta, sonhando talvez com a publicação em livro. Hoje escreve-se para o blog, às vezes secretamente esperando o “upgrade” para papel, outras deitando sobre o teclado sentimentos e pensamentos escondidos, mas que urge deixar sair e, eventualmente, secretamente partilhar com o mundo.


Há uns tempos atrás escrevi um artigo sobre o fim do amor. Um dos e-mails que recebi a propósito dessa crónica, indicava apenas um link para um blog. Curioso, lá fui ver o que se escrevia por ali.Deparei-me com um weblog onde uma pessoa em sofrimento ali “deitava” os seus pensamentos e sentimentos. Pareceu-me um relato cru, honesto e pungente do que é estar a sofrer.
O autor fala de depressão, de ciúme, dos filhos, do querer e não querer, tudo de uma forma – naturalmente – anónima.
Por vezes não temos interlocutor para falar de certas coisas. É um lugar comum, com algo de romântico, a imagem do escritor sofredor sentado à frente da sua máquina de escrever, em pleno acto de criação. No último artigo falei do Ian Curtis, o que até será um bom exemplo, na música, deste tipo de estado criativo. Ao ler o blog que me chegou por e-mail, veio-me à memória uma frase que julgo ter lido no “Jornal de Letras” há muitos muitos anos e que atribuo a Goette: “Usa a tua dor e faz dela uma obra de arte”. Não é arte o que o autor deste blog faz e julgo que não tem pretensões a tal. É um sitio onde o autor conversa consigo próprio. Onde deita cá para fora a dor. Onde a usa, por vezes em verso..
Interessou-me também os comentários que as pessoas lhe iam deixando. Todas ou quase todas mensagens de esperança, de apoio. Curioso: Nem conhecemos os nossos vizinhos, mas deixamos uma palavra de conforto a um anónimo num blog.
A escrita tem um potencial libertador enorme, a meu ver. Por vezes ao escrever, encontramo-nos, organizamo-nos. Mas também nos podemos perder, desorganizar o pouco que ainda está organizado. Podemos fazê-la ponto de reflexão e de partida para mudança, como também a podemos tornar um buraco negro que suga toda a luz que ainda temos.
Nesta altura em que se falou de comportamentos de auto-mutilação, de sítios de Internet onde se criam comunidades cujos autores mutuamente reforçam comportamentos e pensamentos auto-destrutivos (como os dedicados à anorexia), a questão do diário enquanto livrinho com cadeado para ninguém ler ou sítio de Internet acessível ao mundo, levantam-nos questões ainda difíceis de fazer, quanto mais responder: Estão-se a criar ou a resolver problemas? Serão estes sítios em si mesmo um problema? Ou apenas um meio de gritar (ou perpetuar) a dor?
Se calhar num blog em que há comentários dirigidos à mudança positiva, a escrita pode ser um motor de mudança. Num sítio em que se louva a anorexia, talvez se esteja a favorecer a manutenção do problema.
A questão é que a Internet é hoje, também um meio, fácil e rápido, de encontrar iguais na multidão, para o bem e para o mal. Talvez encontrar a mão amiga que necessitamos e de que não dispomos à primeira vista. Ou a mão que nos falta para apertar o gatilho.
Quem escreve em sofrimento, deve também procurar ajuda real, face a face. Num amigo, num profissional de saúde. A mão digital nunca terá o calor da mão humana e não a substitui, mesmo que seja (espero) ponto de partida para a mudança – como, aliás, parece ter sido no caso do blog referido e que decidi manter anónimo, apesar de ter autorização para o divulgar.

Publicada porVictor Silva à(s) 14:24 1 comentários  

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